Vasculites Sistémicas em 2026

Vasculites Sistémicas em 2026

As vasculites sistémicas constituem um grupo heterogéneo de doenças raras, de etiologia ainda desconhecida, caracterizadas predominantemente por inflamação vascular. Estas entidades apresentam frequentemente envolvimento multissistémico e podem associar-se a morbilidade significativa e risco de compromisso orgânico grave. A classificação das vasculites baseia-se, sobretudo, no calibre dos vasos predominantemente afetados, distinguindo-se vasculites de grandes, médios e pequenos vasos. Algumas formas ocorrem predominantemente na idade adulta, como a Arterite de Células Gigantes e as Vasculites associadas a ANCA, enquanto na população pediátrica predominam a vasculite associada a IgA e a Doença de Kawasaki.

Nas últimas duas décadas, verificou-se uma transformação profunda na abordagem diagnóstica e terapêutica das vasculites sistémicas. No contexto das vasculites associadas a ANCA, os anticorpos anticitoplasma de neutrófilo (ANCA) assumiram um papel central, não apenas como biomarcadores diagnósticos, mas também pela sua relevância fisiopatológica, contribuindo para redefinir o próprio conceito destas doenças. Paralelamente, os avanços nas técnicas de imagem, nomeadamente a ecografia vascular, a angio-TC e a PET-FDG, permitiram melhorar substancialmente a capacidade diagnóstica na Arterite de Células Gigantes e na Arterite de Takayasu. A crescente integração destes métodos reforçou a compreensão da natureza sistémica das vasculites de grandes vasos, frequentemente associadas a envolvimento de diferentes territórios vasculares.

Os progressos terapêuticos têm sido igualmente notáveis. Na Arterite de Células Gigantes, a introdução de terapêuticas dirigidas, como o tocilizumab e o upadacitinib, permitiu reduzir significativamente a exposição cumulativa a corticosteroides e melhorar o prognóstico a longo prazo. Nas vasculites associadas a ANCA, o rituximab consolidou-se como uma das principais opções terapêuticas no tratamento de indução e de manutenção da remissão. Mais recentemente, novas estratégias terapêuticas, incluindo a inibição do complemento (avacopan) e da interleucina-5 (mepolizumab e benralizumab), vieram ampliar o arsenal terapêutico disponível e proporcionar benefícios clínicos adicionais em subgrupos específicos de doentes.

Devido à sua natureza multissistémica, consideramos que o internista com experiência em imunologia clínica desempenha um papel basilar no diagnóstico, tratamento e monitorização destes doentes. Apesar dos avanços muito significativos alcançados nos últimos anos, as vasculites sistémicas continuam a ser doenças complexas e desafiantes. Reconhecer a heterogeneidade destas entidades e a singularidade do percurso clínico de cada doente é essencial para uma abordagem verdadeiramente centrada na pessoa e para a otimização dos cuidados prestados.

Dia Mundial das Vasculites – 15 de maio

João Fernandes Serôdio – Unidade de Doenças Imunomediadas Sistémicas, ULS Amadora Sintra / NOVA Medical School

(15/05/2026)