Estamos perante muito mais do que medicamentos para emagrecer?

Chamamos-lhes “injeções para emagrecer”. Talvez seja uma forma demasiado pequena de olhar para medicamentos que começam a mostrar benefícios muito maiores.

Wegovy, que contém semaglutida, e Mounjaro, que contém tirzepatida, tornaram-se nomes conhecidos do grande público. Reduzem o apetite e ajudam a perder peso. Mas também estão a mudar o tratamento de doenças do coração, do fígado, das articulações e do sono. Há até sinais de que poderão ter um papel nas dependências.

Isto levanta uma pergunta incómoda: se estes medicamentos ajudam a tratar uma doença, deverá o acesso depender de a pessoa ter ou não obesidade?

O estudo SELECT deu um dos sinais mais fortes. Incluiu mais de 17 mil pessoas com excesso de peso ou obesidade, doença cardiovascular e sem diabetes. A semaglutida reduziu em 20% o risco de morte cardiovascular, enfarte ou acidente vascular cerebral. Não estamos apenas a falar de perder quilos. Estamos a falar de prevenir acontecimentos que podem matar ou deixar incapacidade.

Na insuficiência cardíaca, a semaglutida e a tirzepatida também melhoraram os sintomas, a capacidade para realizar as atividades do dia a dia e a qualidade de vida. As recomendações europeias de 2026 já reconhecem esse benefício em determinados doentes. Mas mantêm uma condição: têm de ter obesidade.

Encontramos a mesma fronteira noutras doenças. Na apneia obstrutiva do sono, a tirzepatida reduziu a gravidade da doença. Na osteoartrose do joelho, a semaglutida diminuiu a dor e melhorou a função física. Respirar melhor, caminhar com menos dor ou evitar um internamento são resultados que dificilmente podem ser reduzidos a um número na balança.

Há, no entanto, um cuidado essencial: estes estudos foram realizados em pessoas com obesidade. Mostram benefícios que vão além da perda de peso, mas não provam que os mesmos benefícios existam em pessoas sem obesidade. São duas afirmações muito diferentes.

Na doença do fígado, essa fronteira já começou a deslocar-se. Nos Estados Unidos, a semaglutida foi aprovada para alguns doentes com inflamação do fígado e fibrose moderada a avançada. Neste caso, a indicação depende da doença e da gravidade da lesão, não de um valor mínimo na balança.

Também o cérebro pode fazer parte desta história. Num pequeno ensaio publicado no JAMA Psychiatry, a semaglutida reduziu o desejo de beber e alguns padrões de consumo de álcool. É um resultado inicial e não transforma a semaglutida num tratamento aprovado para a dependência. Mas abre uma porta inesperada: aqui, o alvo já não é a gordura corporal. É o desejo, a recompensa e o comportamento aditivo.

E é precisamente aqui que devemos fazer a pergunta mais difícil. Se, no futuro, se confirmar que estas moléculas atuam diretamente no coração, no fígado, na inflamação ou nos circuitos cerebrais, fará sentido recusá-las a uma pessoa com a mesma doença apenas porque não tem obesidade?

Ainda não sabemos. E não devemos avançar mais depressa do que a ciência. A maioria dos ensaios incluiu pessoas com diabetes, excesso de peso ou obesidade. Não podemos transportar automaticamente esses resultados para todas as pessoas. Precisamos de estudos pensados a partir da doença — e não apenas do peso — que incluam também doentes sem obesidade.

O debate sobre estas terapêuticas não pode continuar reduzido à ideia simplista das “injeções para emagrecer”. Hoje, a obesidade ainda define muitas das suas indicações. No futuro, poderá ser apenas uma das perguntas que fazemos antes de as prescrever. As restantes — para que doenças e para que doentes? — terão de ser respondidas pela evidência.

 

Leila Amaro Cardoso – Coordenadora do Núcleo de Estudos de Obesidade da SPMI

 

Este artigo foi publicado na revista Visão

(23/09/2026)