Quando chega o outono, a obesidade também conta

Com a chegada do outono regressam as infeções respiratórias. Gripe, COVID-19 e outros vírus voltam a fazer parte do nosso quotidiano e, com eles, regressa a preocupação com as pessoas que apresentam maior risco de doença grave. Pensamos nos mais velhos, nas pessoas com doença respiratória, cardiovascular ou diabetes. Mas há um fator de risco de que ainda se fala pouco neste contexto: a obesidade.

Quando pensamos nas complicações da obesidade, pensamos habitualmente na diabetes, na hipertensão, no enfarte ou nas doenças articulares. Raramente pensamos numa infeção. No entanto, sabemos hoje que a obesidade pode influenciar a forma como o organismo responde a determinadas infeções e associar-se a maior gravidade.

Um grande estudo publicado este ano no The Lancet, utilizando dados de mais de meio milhão de adultos, voltou a colocar esta relação em evidência. Globalmente, as pessoas com obesidade apresentaram um risco cerca de 70% superior de infeção grave, fatal ou não fatal. Na obesidade de classe III, o risco de hospitalização por infeção foi aproximadamente três vezes superior. Os investigadores estimaram ainda que, em 2023, cerca de uma em cada dez mortes relacionadas com infeções, a nível mundial, poderia ser atribuível à obesidade.

Mas porquê?

A resposta começa por perceber que o tecido adiposo está longe de ser apenas um local onde armazenamos energia. É um órgão metabolicamente ativo, capaz de produzir substâncias que participam na regulação da inflamação e da resposta imunitária. Na obesidade, esta comunicação altera-se e instala-se frequentemente um estado de inflamação crónica de baixo grau.

Pode parecer contraditório: se existe mais inflamação, não deveria o organismo estar mais preparado para combater uma infeção? Não necessariamente. Uma resposta imunitária eficaz não depende de produzir simplesmente mais inflamação. Depende de conseguir ativá-la no momento certo, na intensidade adequada e de forma coordenada. Na obesidade, este equilíbrio pode estar comprometido, alterando a resposta a alguns vírus respiratórios.

A isto junta-se o próprio efeito da obesidade sobre a respiração. O excesso de tecido adiposo, sobretudo abdominal, pode limitar o movimento do diafragma, reduzir alguns volumes pulmonares e aumentar o trabalho necessário para respirar. Alterações que podem passar relativamente despercebidas no dia a dia tornam-se mais relevantes quando uma infeção coloca o aparelho respiratório sob maior exigência.

A gripe foi um dos primeiros grandes alertas. Durante a pandemia de influenza A(H1N1), em 2009, a obesidade emergiu como fator associado a formas graves da doença. Mais de uma década depois, a COVID-19 voltou a mostrar de forma particularmente evidente que as pessoas com obesidade apresentavam maior risco de hospitalização, cuidados intensivos e doença respiratória grave.

Isto não significa que ter obesidade seja sinónimo de “apanhar mais vírus”, nem que todas as infeções respiratórias tenham pior evolução. A relação é mais complexa e varia consoante o agente infecioso, o grau de obesidade, a distribuição do tecido adiposo e a presença de outras doenças. Mas significa que a obesidade deve fazer parte da avaliação do risco quando falamos de infeções respiratórias.

À entrada de mais um outono, esta é também uma oportunidade para falar de prevenção, vacinação e controlo adequado das doenças crónicas. E para recordar que tratar a obesidade não é apenas fazer baixar um número na balança.

É tratar uma doença que interfere com múltiplos sistemas do organismo – incluindo a forma como respiramos e como nos defendemos quando uma infeção chega.

 

Leila Amaro Cardoso – Coordenadora do Núcleo de Estudos de Obesidade da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

(14/10/2026)