“A obesidade tem de ser reconhecida como a doença crónica que é”
Antes de mais, o que representa para si assumir a coordenação do Núcleo de Estudos de Obesidade da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna?
Foi com grande satisfação que assumi este cargo, porque tenho um interesse nesta área que é fruto do meu percurso académico e profissional. Iniciei o meu percurso na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, no início dos anos 2000; viria mais tarde a licenciar-me em Medicina e a obter a Competência em Nutrição Clínica pela Ordem dos Médicos. Ainda durante o internato, mantive sempre uma consulta dedicada à obesidade, o que mostra bem que este interesse não é recente, mas antes uma constante ao longo de toda a minha formação.
Durante muitos anos, a obesidade não foi reconhecida nem tratada como aquilo que verdadeiramente é: uma doença crónica, que merece o mesmo respeito — tanto na sociedade como junto da própria classe médica — que é dado a outras doenças crónicas. Foi, tantas vezes, um esforço que pareceu não ter o eco e o reconhecimento que merecia, nem na sociedade, nem em muitos meios médicos.
Felizmente, nos últimos anos este cenário tem vindo a mudar. Com a evolução da investigação — também impulsionada pelo investimento da indústria —, com um conhecimento mais aprofundado da doença e com mais formação disponível nesta área, tem-se finalmente começado a olhar para a obesidade como aquilo que sempre foi: uma doença complexa, crónica, recidivante e multifatorial.
Assumir agora a coordenação do Núcleo de Estudos de Obesidade da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna representa, por isso, muito mais do que uma realização pessoal. Representa sobretudo uma oportunidade e uma responsabilidade coletivas: a de contribuir para que a sociedade continue a olhar para a obesidade como a doença crónica que é — e não como uma questão de vontade, de estilo de vida ou de falta de força de vontade — e para que as pessoas que vivem com esta doença deixem de se sentir julgadas e passem a sentir-se acompanhadas.
Representa também uma oportunidade para a Medicina Interna: a de afirmar, de forma cada vez mais visível, o papel central que esta especialidade tem no diagnóstico, tratamento e acompanhamento longitudinal da obesidade, e de mobilizar os internistas em torno de uma causa que, sendo de todos, precisa de vozes fortes e articuladas. É, no fundo, a possibilidade de transformar o que foi durante muito tempo uma luta individual numa causa verdadeiramente partilhada — com os colegas, com a sociedade científica e com a sociedade em geral.
Quais serão as principais prioridades do seu mandato?
As prioridades do meu mandato assentam em três eixos fundamentais.
O primeiro é a formação: pretendo apostar na formação contínua dos internistas e de outros profissionais de saúde nesta área, para que o conhecimento sobre a obesidade — enquanto doença crónica, complexa e multifatorial — chegue de forma mais consistente à prática clínica.
O segundo é a aproximação da sociedade a esta doença, levando-a mais à comunidade e trabalhando a sensibilização pública, para que a obesidade deixe de ser encarada como uma questão de estilo de vida ou de força de vontade e passe a ser entendida como aquilo que verdadeiramente é: uma doença que exige compreensão, respeito e acompanhamento.
O terceiro, e considero-o decisivo, é a conquista política: sensibilizar os decisores para a importância e a complexidade desta doença. Só através deste reconhecimento social e político será possível avançar com a comparticipação dos tratamentos e garantir que estes chegam efetivamente à população que deles necessita.
A obesidade é hoje reconhecida como uma doença crónica complexa. Considera que esta visão já está plenamente consolidada entre os profissionais de saúde e na sociedade?
Não, a resposta é não. Continuamos a ter um longo caminho a percorrer em termos de formação e de divulgação nesta área. Mesmo os profissionais que nos dedicamos de forma mais próxima à obesidade continuamos, ano após ano, a aprender coisas novas — o que só reafirma a enorme complexidade desta doença.
Sem dúvida que consolidar estes conceitos em todos os setores da sociedade — na classe médica, mas também na comunidade, nos decisores políticos e nos meios de comunicação — é fundamental para conseguirmos, finalmente, combater de forma eficaz o desconhecimento e os preconceitos que ainda persistem em torno desta doença.
Apesar dos avanços científicos, continuam a existir preconceitos associados à obesidade. Como podem os médicos internistas contribuir para combater o estigma?
Estou convicta de que a formação e o conhecimento aprofundado desta doença são a principal forma de combater o preconceito e o estigma. Quando conhecemos bem a obesidade, percebemos que esta não é uma questão de vontade, mas antes uma doença cuja compreensão é, de facto, muito mais complexa do que aparenta.
Por isso, o primeiro passo tem de ser sempre o de aumentar o conhecimento — dos próprios médicos internistas, mas também de todos os profissionais de saúde e da sociedade em geral. Quando este conhecimento estiver verdadeiramente consolidado, tornar-se-á impossível continuar a sustentar ideias pré-concebidas sobre a obesidade e sobre as pessoas que vivem com ela.
Os internistas, pela sua formação transversal e pelo contacto próximo que têm com os doentes, estão numa posição privilegiada para serem agentes desta mudança: cabe-lhes explicar, dentro e fora dos hospitais, que a obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial — e não o resultado de uma escolha ou de falta de força de vontade.
Nos últimos anos surgiram novas opções terapêuticas que têm vindo a transformar o tratamento da obesidade. Como avalia esta evolução e que impacto poderá ter na prática clínica?
Do meu ponto de vista, esta transformação terapêutica constitui um verdadeiro marco na história do tratamento da obesidade. Os análogos do GLP-1 e, mais recentemente, os análogos duplos e triplos, permitiram um enorme investimento na investigação nesta área e, sobretudo, uma melhor compreensão do envolvimento do sistema nervoso central na regulação do apetite. Este passo foi fundamental para conseguirmos, finalmente, tratar esta doença de forma eficaz.
Estão já em estudo novas moléculas, também assentes neste eixo entre o sistema nervoso central e o aparelho digestivo, que continuarão certamente a revolucionar o tratamento da obesidade. Os resultados que se têm obtido aproximam-se cada vez mais dos de terapêuticas mais invasivas, como a cirurgia bariátrica, o que vem alargar de forma muito significativa o leque de opções de tratamento disponíveis para esta doença.
O acesso aos tratamentos continua a ser um desafio. Que mudanças considera necessárias para garantir uma resposta mais equitativa aos doentes?
A comparticipação é, sem dúvida, fundamental. Dito isto, sou realista: sei que garantir a comparticipação para todos os doentes será, numa primeira fase, difícil de concretizar, por razões económicas. Mas temos de começar por algum lado.
Discute-se muito quem deveria ser priorizado, e esse é, também ele, um dos maiores desafios. Por um lado, intervir em fases mais precoces da doença evita o seu agravamento e o surgimento de complicações. Por outro, os doentes com obesidade mais avançada e com múltiplas complicações necessitam, de forma mais urgente, de acesso ao tratamento. Definir critérios de prioridade entre estas duas realidades é, por isso, extremamente desafiante.
No mundo ideal, conseguiríamos desenhar estratégias de acesso que abrangessem todos os doentes, independentemente da fase da doença em que se encontram. É esse o horizonte para o qual devemos trabalhar.
Sendo a obesidade uma doença multifatorial, qual a importância da abordagem multidisciplinar e da articulação entre diferentes especialidades e cuidados de saúde?
Em qualquer doença crónica, a intervenção multidisciplinar é fundamental — e a obesidade não é exceção. Pelo contrário: a alteração do estilo de vida é a base de todo o tratamento, pelo que o trabalho conjunto com a Nutrição e com profissionais especializados em exercício físico é essencial. É importante que estes profissionais dominem estes dois pilares e estejam verdadeiramente especializados na abordagem da obesidade.
Seja a intervenção psicológica, farmacológica ou cirúrgica, o seu sucesso depende sempre, em grande medida, do sucesso alcançado na alteração do estilo de vida. Por isso defendo que a intervenção deve ser individualizada a cada doente, e que devemos trabalhar em centros com equipas multidisciplinares, com vários profissionais especializados nesta doença — só assim conseguiremos dar resposta à complexidade da obesidade.
Qual é, em particular, o papel da Medicina Interna na prevenção, diagnóstico e tratamento da obesidade?
A grande vantagem da Medicina Interna na abordagem a doenças crónicas, complexas e recidivantes como a obesidade é, precisamente, a capacidade de ver o doente como um todo. Os internistas dominam as complicações associadas a esta doença e têm a formação necessária para as integrar, em vez de as tratar de forma compartimentada.
Esta visão global permite-nos abordar o doente de forma verdadeiramente integrada, e não apenas a doença isoladamente, o que faz da Medicina Interna uma especialidade central na prevenção, no diagnóstico, no tratamento e no acompanhamento da obesidade.
Que projetos de formação e investigação pretende desenvolver através do Núcleo durante o seu mandato?
No plano da formação, pretendo apostar na realização de webinars e cursos que permitam aumentar o conhecimento sobre a obesidade, tornando-o acessível a um número cada vez maior de internistas e de outros profissionais de saúde.
No plano da investigação, quero trabalhar em parceria com outras sociedades científicas, institutos e faculdades, sobretudo para conseguirmos traçar um retrato fiel desta doença na nossa sociedade, com dados epidemiológicos sólidos sobre a obesidade e as suas complicações. Estes dados são fundamentais para demonstrar a sua real prevalência e a urgência de a abordarmos em pé de igualdade com as demais doenças crónicas — e para lhe dar, assim, mais projeção clínica, social e política.
Está prevista a elaboração ou atualização de recomendações, consensos ou outros documentos de apoio à prática clínica?
Sim. Já existem projetos em curso com este objetivo, e contamos ter novidades a este respeito ainda ao longo deste ano.
Como pretende envolver os internistas mais jovens nas atividades do Núcleo?
A minha aposta passará sempre pela formação dos internistas mais jovens, dando-lhes ferramentas que fomentem o interesse por esta área e lhes permitam adquirir as competências necessárias para, no futuro, iniciarem a sua própria consulta de obesidade.
É através desta formação, feita de forma próxima e continuada, que espero conseguir motivar mais internistas jovens a dedicarem-se a esta área e a envolverem-se ativamente nas atividades do Núcleo.
Que importância atribui à colaboração com outras sociedades científicas, associações de doentes e decisores políticos?
Estas parcerias são absolutamente fundamentais. Quanto mais trabalharmos em conjunto — com outras sociedades científicas, com as associações de doentes e com os decisores políticos —, maior é o impacto que conseguimos ter em todos os pilares da sociedade, e maior é também a força que reunimos para mudar políticas e, assim, conseguirmos tratar melhor a obesidade.
Se pudesse concretizar três objetivos até ao final do mandato, quais gostaria de ver alcançados?
Se tivesse de resumir em três objetivos, escolheria os seguintes.
O primeiro seria desenvolver orientações clínicas e operacionais para a pessoa com obesidade, e implementar modelos de cuidados integrados suportados por recomendações e algoritmos que apoiem, na prática, o dia a dia dos profissionais.
O segundo seria promover a formação contínua dos profissionais de saúde nesta área, a par do fomento da investigação em obesidade e da implementação de medidas de saúde pública que dela decorram.
O terceiro seria criar canais de cooperação com instituições nacionais e internacionais, e contribuir, a partir daí, para políticas públicas baseadas na mais recente evidência científica.
Que mensagem gostaria de deixar aos médicos internistas e a todos os profissionais envolvidos no acompanhamento das pessoas que vivem com obesidade?
A mensagem que gostaria de deixar é, acima de tudo, um convite: o de olharmos para a obesidade com o mesmo rigor científico, o mesmo respeito e a mesma dedicação com que olhamos para qualquer outra doença crónica. Sabemos hoje que se trata de uma doença complexa, multifatorial e recidivante, e esse conhecimento tem de se traduzir em prática clínica — no combate ao estigma, numa abordagem verdadeiramente multidisciplinar e individualizada, e no acompanhamento próximo e continuado de cada doente.
Temos também boas razões para olhar para o futuro com esperança: a evolução terapêutica dos últimos anos, sobretudo com os análogos do GLP-1 e as moléculas que se seguem, tem-nos dado ferramentas cada vez mais eficazes para tratar esta doença. Cabe-nos agora a todos — internistas, outros profissionais de saúde, sociedade e decisores políticos — garantir que estas ferramentas chegam a quem delas precisa, de forma equitativa.
Aos médicos internistas, deixo um apelo especial: continuem a formar-se, a questionar-se e a envolver-se nesta causa. É com o trabalho de cada um, feito em conjunto e não isoladamente, que conseguiremos, finalmente, dar à obesidade o lugar que lhe é devido — quer na prática clínica, quer na sociedade.
Esta entrevista foi publicada no Healthnews e no SAPO
(24/07/2026)




