Rafaela Veríssimo assume coordenação do NEGERMI e quer reforçar o papel da Geriatria na Medicina Interna
Rafaela Veríssimo é a nova coordenadora do Núcleo de Estudos de Geriatria (NEGERMI) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), assumindo o mandato com a ambição de reforçar o papel da Geriatria na Medicina Interna. Consolidar o NEGERMI como um espaço de conhecimento, formação, investigação e partilha de boas práticas, mas também como uma voz ativa na definição de estratégias para os cuidados à população mais velha em Portugal, é uma das prioridades da nova coordenadora.
“Assumir a coordenação do NEGERMI é, antes de mais, uma responsabilidade e uma oportunidade para reforçar o papel da Geriatria dentro da Medicina Interna”, afirma Rafaela Veríssimo. O mandato terá quatro grandes eixos: aproximar o núcleo dos internistas, de outros profissionais de saúde e dos diferentes níveis de cuidados; reforçar a formação em Geriatria das equipas; desenvolver e divulgar modelos de organização de cuidados replicáveis e de boas práticas; e promover a investigação e a produção científica nacional.
A nova coordenadora pretende que o NEGERMI seja cada vez mais “uma plataforma de colaboração”, capaz de ligar hospitais, cuidados de saúde primários, comunidade e academia. O objetivo, sublinha, não passa simplesmente por aumentar o número de iniciativas, mas por garantir que estas têm “impacto real na prática clínica e na qualidade dos cuidados prestados às pessoas mais velhas”.
Num país que está entre os mais envelhecidos da Europa, Rafaela Veríssimo considera que o principal desafio não é apenas o aumento do número de pessoas idosas, mas a maior longevidade acompanhada por uma prevalência crescente de multimorbilidade, fragilidade, dependência e complexidade clínica. “Precisamos, por isso, de passar de um modelo centrado sobretudo na doença aguda e no episódio hospitalar para um modelo que valorize a continuidade de cuidados, a prevenção da incapacidade e a manutenção da autonomia”, defende.
Neste contexto, atribui à Medicina Interna um papel central. O internista, explica, está particularmente preparado para integrar múltiplas doenças, tratamentos e problemas clínicos, evitando uma abordagem fragmentada. Mas é necessário incorporar de forma mais sistemática princípios geriátricos na prática clínica, nomeadamente a avaliação da fragilidade, funcionalidade, cognição, nutrição, risco de delirium, contexto social e objetivos do próprio doente. Para Rafaela Veríssimo, a Medicina Interna pode ser “um dos motores” de uma maior integração entre hospital, cuidados de saúde primários, cuidados continuados e comunidade.
É precisamente esta mudança de olhar sobre a pessoa mais velha que a Geriatria procura promover. “Continuamos muitas vezes a olhar para a pessoa idosa sobretudo através das suas doenças”, reconhece a médica, salientando que a abordagem geriátrica propõe olhar “para além do diagnóstico”. A funcionalidade, em particular, continua a ser frequentemente subvalorizada. Saber se uma pessoa consegue andar, alimentar-se, tomar a medicação, gerir as atividades do quotidiano ou regressar ao seu contexto habitual é, para a coordenadora do NEGERMI, tão determinante para a decisão clínica como conhecer as suas doenças.
Fragilidade, cognição, saúde mental, nutrição, risco de quedas, situação social e objetivos e preferências da própria pessoa são outras dimensões que devem integrar a avaliação. “São dimensões que muitas vezes determinam mais o prognóstico e a qualidade de vida do que uma doença isoladamente”, afirma. Mas a avaliação geriátrica só terá verdadeiro valor, acrescenta, quando conduzir a intervenções concretas e a “um plano individualizado e partilhado com o doente e com a família”.
A mesma lógica deve aplicar-se à abordagem da multimorbilidade e polimedicação. Perante uma pessoa com várias doenças e múltiplos tratamentos, “o objetivo não pode ser simplesmente tratar cada doença de acordo com as respetivas recomendações”. A pergunta fundamental deverá ser: “O que é mais importante para esta pessoa?”. A avaliação da fragilidade permite adequar a intensidade das intervenções à reserva fisiológica e às necessidades individuais, enquanto a revisão regular da medicação deve avaliar não só a existência de fármacos potencialmente inadequados, mas também se cada tratamento continua a trazer benefício face ao contexto e aos objetivos da pessoa.
Para isso, considera essencial reforçar o trabalho em equipas multidisciplinares, envolvendo médicos e profissionais de saúde como enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e outros profissionais.
A formação será outra das prioridades do mandato. Rafaela Veríssimo quer garantir que todos os internistas adquiram competências fundamentais em Geriatria, independentemente de trabalharem ou não numa estrutura geriátrica formal, através de iniciativas de formação em boas práticas e com conteúdos aplicáveis ao quotidiano clínico.
Também a investigação terá um papel de destaque. A nova coordenadora considera necessário criar mais oportunidades para os internistas desenvolverem investigação em Geriatria, através de estudos multicêntricos, registos, projetos colaborativos e investigação aplicada à realidade portuguesa. A ambição é transformar o NEGERMI numa “rede nacional de investigadores e centros interessados em Geriatria”, facilitando a colaboração entre hospitais e instituições e dando maior visibilidade à investigação portuguesa nesta área.
A agenda do núcleo para 2026 inclui já várias iniciativas. Estão previstos cursos na área da introdução à Geriatria e da nutrição, a continuidade das sessões online “Open Sessions”, dedicadas a temas transversais aos internistas com interesse pela Geriatria e longevidade, e a 9.ª Reunião do NEGERMI, marcada para outubro, que irá abordar temas atuais e boas práticas.
Rafaela Veríssimo deixa uma mensagem que associa confiança e responsabilidade perante uma transformação demográfica que considera transversal a todo o sistema de saúde. “Envelhecer é inevitável. Envelhecer com autonomia, dignidade e qualidade de vida deve ser uma prioridade”, afirma.
“O envelhecimento da população não é um problema da Geriatria; é um desafio de todo o sistema de saúde”, acrescenta. Por isso, a abordagem geriátrica não deve ficar confinada às consultas ou unidades de Geriatria, devendo estar presente nas urgências, enfermarias de Medicina Interna, cuidados intensivos, cirurgia, cuidados de saúde primários e comunidade.
“Precisamos de uma Medicina Interna cada vez mais capaz de reconhecer a complexidade do envelhecimento e de responder a ela de forma integrada, científica e humana”, defende a nova coordenadora. É nesse caminho que o NEGERMI pretende contribuir, aproximando a Geriatria da prática clínica diária, capacitando profissionais e promovendo “uma cultura de cuidados centrada na pessoa”. Porque, conclui Rafaela Veríssimo, “uma boa Medicina para a pessoa mais velha é, no fundo, uma Medicina melhor para todos”.
(27/08/2026)




