NEGERMI lança livreto digital para melhorar diagnóstico e tratamento da anemia e deficiência de ferro em idosos
O Núcleo de Estudos de Geriatria (NEGERMI) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) desenvolveu um livreto informativo dedicado à orientação diagnóstica e à abordagem da deficiência de ferro e da anemia na população idosa, uma iniciativa que surge da elevada prevalência destas condições e da sua frequente subvalorização clínica. “A anemia ferropénica e mesmo a ferropénia sem anemia são muito frequentes na população mais velha, mas muitas vezes subdiagnosticadas e/ou tratadas de forma inadequada”, afirma Sofia Duque, membro do NEGERMI, sublinhando que estas situações “estão claramente associadas a maior mortalidade, incapacidade, quedas, hospitalizações e declínio funcional”.
A especialista refere que não é raro limitar a investigação diagnóstica “simplesmente pelo critério idade”, apesar de muitas causas serem tratáveis. Assim, o livreto pretende servir como “um recurso prático, direto e baseado na evidência” que ajude os profissionais de saúde a diagnosticar corretamente a anemia e a ferropénia em idosos, identificar causas subjacentes e tomar decisões terapêuticas adequadas.
Uma das mensagens centrais do documento é que a anemia não deve ser encarada como um processo natural do envelhecimento. “A anemia não é uma consequência normal do envelhecimento”, reforça Sofia Duque. Quando esta ideia é aceite, explica, “causas tratáveis podem ser ignoradas, como deficiência de ferro ou hemorragias ocultas”, aumentando o risco de pior qualidade de vida, quedas, complicações cardiovasculares e declínio funcional e cognitivo. O livreto sublinha, por isso, que a anemia deve ser sempre investigada, mesmo em idosos sem sintomas, já que muitas das suas causas têm tratamento eficaz.
O documento evidencia também diversas particularidades que tornam a avaliação mais desafiante no idoso. Até 30 a 45% dos casos de anemia nesta faixa etária resultam de deficiência de ferro, muitas vezes coexistindo com doenças crónicas que alteram marcadores laboratoriais e dificultam a interpretação. “Os idosos têm reserva de ferro reduzida, absorção intestinal diminuída e maior suscetibilidade a perdas sanguíneas”, afirma Sofia Duque, acrescentando que os sintomas podem ser inespecíficos, como fadiga, fraqueza ou alterações cognitivas, exigindo maior vigilância clínica. No diagnóstico, a ferritina pode estar normal ou elevada devido à inflamação crónica, mascarando a deficiência de ferro verdadeira, o que obriga a uma leitura integrada dos parâmetros laboratoriais e, quando necessário, à utilização de marcadores adicionais.
No que toca ao tratamento, o livreto orienta uma abordagem individualizada, adaptada à fragilidade e às comorbilidades frequentes nesta faixa etária. “A via oral é preferível em casos ligeiros ou moderados”, explica Sofia Duque, embora em situações de intolerância, baixa absorção, anemia mais grave ou necessidade de reposição rápida, especialmente em contexto de inflamação crónica ou peri-operatório, deva ser considerada a administração de ferro endovenoso. A decisão deve equilibrar eficácia, tolerabilidade e impacto na funcionalidade e qualidade de vida do idoso.
Sofia Duque destaca ainda que uma abordagem sistematizada pode ter impacto clínico significativo, permitindo melhorias na capacidade funcional, desempenho físico e qualidade de vida, além de reduzir complicações cardiovasculares, necessidade de transfusões, dias de internamento e incapacidade associada. Estes benefícios mostram que o diagnóstico ativo e o tratamento adequado “não são apenas curativos”, contribuindo para melhores desfechos globais no idoso.
Embora desenvolvido no âmbito da Medicina Interna, o folheto destina-se a todos os profissionais de saúde que acompanham pessoas idosas com anemia ou deficiência de ferro. Segundo Sofia Duque, Internista e Geriatria a trabalhar no Hospital Cuf Descobertas, “a linguagem e os algoritmos propostos tornam-no um guia versátil”, útil para médicos de várias especialidades e outros profissionais envolvidos na avaliação e gestão da anemia em contexto geriátrico. O NEGERMI espera que este recurso contribua para uma prática clínica mais rigorosa, informada e centrada na funcionalidade do idoso.
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(05/02/2026)





