DJ põe a música a tocar. A dor também tem uma banda sonora

A dor não tem uma única melodia nem cabe numa única playlist. É tão variada como as pessoas que a têm. Pode mudar de ritmo, intensidade, volume e instrumento que a toca. Pensemos nos estilos musicais como metáforas, não exatamente como diagnósticos: ajudam-nos a imaginar experiências diferentes, mas cada pessoa sente a sua dor à sua maneira. Por isso não existe uma dor, existem dores.

A dor aguda pode entrar como um riff de rock ou uma batida súbita de bateria: aparece de repente e, muitas vezes, funciona como um alerta do corpo. A dor crónica lembra um blues que regressa, com um ritmo persistente que pode acompanhar alguém durante meses e interferir no quotidiano. A dor somática, que pode vir da pele, dos músculos ou dos ossos, assemelha-se a uma melodia acústica mais nítida e localizada. A dor visceral, com origem nos órgãos internos, pode soar a jazz: um contrabaixo grave e envolvente, nem sempre fácil de localizar.

Também podemos olhar para os mecanismos envolvidos, quase como numa leitura atenta de uma letra que nos toca ou numa pauta que anseia por ser lida. A dor nociceptiva é como uma percussão de alarme, associada a dano ou ameaça de dano nos tecidos; pode ser somática ou visceral. A dor neuropática lembra música eletrónica com interferências e distorções, por estar relacionada com uma lesão ou doença do sistema nervoso. E a dor mista aproxima-se do jazz-fusão: diferentes ritmos e instrumentos sobrepõem-se, porque mais do que um mecanismo pode contribuir para a experiência. Estas classificações respondem a perguntas diferentes — há quanto tempo dói, onde se sente e que mecanismos podem estar envolvidos — e podem combinar-se na mesma pessoa – única e irrepetível (não há margens para ensaios).

Há dores que chegam sem pedir qualquer licença e sem deixar qualquer desculpa (mesmo que a mais esfarrapada ou sem sentido); outras ficam tanto tempo que aprendem connosco o caminho de casa e sentam-se à mesa. Algumas moram no corpo, outras na memória, na saudade ou na ausência. Às vezes, uma canção começa onde as todas palavras faladas, não faladas e escritas potencialmente falham.

Em Portugal, o fado conhece bem esse território. Amália Rodrigues deu voz à perda, ao cansaço e à saudade em «Estranha Forma de Vida», «Abandono», «Povo Que Lavas no Rio» e «Cansaço». «Vou Dar de Beber à Dor» até a senta à mesa — embora talvez não seja boa ideia oferecer-lhe demasiados copos (sob pena de fazer parte da família); há visitas que ficam mais tempo do que deviam. Mais tarde, «Chuva», na voz de Mariza, faz da água uma companhia para a saudade e pinta a dor amorosa com ruas molhadas e lembranças persistentes. E esta saudade por vezes dói! Mas ter saudade não é sinal de que tudo valeu a pena – pessoas, lugares, memórias e vivências.

Lá fora, a dor muda de idioma sem perder o essencial. Em «Tears in Heaven», Eric Clapton dá forma ao luto pela perda do filho. «Hurt», na interpretação de Johnny Cash, parece carregar o peso de uma vida inteira. «Nothing Compares 2 U», cantada por Sinéad O’Connor, evoca a ausência amorosa; «Everybody Hurts», dos R.E.M., faz companhia a quem se sente só; e «Fix You», dos Coldplay, lembra o desejo de amparar alguém, mesmo quando não podemos desfazer todas as feridas (e nada mais humano e real que isso!).

São apenas algumas canções entre milhares. Cada pessoa tem a sua banda sonora: o que traz lágrimas a uns pode confortar outros. Uma estrofe pode encontrar as palavras que faltavam; um refrão, repetido por muitas vozes, pode transformar «estou sozinho» em «alguém me acompanha». E, às vezes, a melodia basta. A música não mede a dor nem a cura por magia, mas pode ajudar a reconhecê-la, partilhá-la ou dar-lhe companhia.

Há também dores sem refrão. A dor física pode ser intensa mesmo quando não se vê; a dor “de alma” não é menos verdadeira por não deixar marca na pele. Quando alguém diz “tenho dor”, merece ser escutado e levado a sério na sua vulnerabilidade e fragilidade.

Não existe uma playlist universal. Há quem procure uma canção para chorar, recordar ou recuperar coragem. Outros precisam de silêncio, de uma mão próxima ou de ajuda profissional (e na verdade está tudo certo!).

Falar de dor é perguntar: onde dói? Desde quando? O que torna os dias mais difíceis? O que ajuda, ainda que um pouco? A dor persistente, agravada ou que limita o sono e as atividades merece avaliação por um profissional de saúde. O cuidado ajusta-se a cada pessoa; não há uma receita nem uma canção que sirva para todos. Daí a necessidade de um plano negociado, versátil e muito fluído.

Neste Dia Nacional da Luta Contra a Dor, escutemos com mais atenção — uma pessoa, uma canção, um silêncio. Por trás de cada dor há uma história que não cabe num acorde ou nota ou mesmo nem num refrão. A nociceção (processo de perceção e transmissão de estímulos que causam dor) é o alarme que o corpo toca; a dor, a melodia única que cada pessoa sente; e o sofrimento, o eco que essa experiência deixa na vida. É uma possibilidade que pode acompanhar a dor, mas não a define por inteiro sendo, por isso, evitável. E mesmo quando não soubermos o que dizer, talvez possamos começar assim: “Estou aqui! O que é que eu preciso de saber sobre ti para te poder ajudar?”.

 

Dr. Ricardo Fernandes – Coordenador do Núcleo de Estudos de Medicina Paliativa da SPMI

Dia Nacional da Luta Contra a Dor – 16 de outubro

(15/10/2026)