Coordenadora do NEIC defende tese de doutoramento sobre a qualidade de vida na insuficiência cardíaca

A Assistente Graduada do Serviço de Medicina Interna da ULS Santo António, Professora Auxiliar Convidada do ICBAS, Universidade do Porto, Investigadora da UMIB /ITR /CAC ICBAS–Santo António e coordenadora do Núcleo de Estudos de Insuficiência Cardíaca (NEIC) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), Irene Marques, defendeu a sua tese de doutoramento intitulada “Quality of life in heart failure: what matters?”, dedicada ao estudo da qualidade de vida dos doentes com insuficiência cardíaca.

A investigadora explica que a escolha do tema resulta de mais de 25 anos de prática clínica: “Como médica, cuido de doentes com Insuficiência Cardíaca (IC) há mais de 25 anos. Senti que estes doentes necessitavam de uma abordagem diferenciada para reduzir o elevado número de episódios de urgência e internamentos”. Foi deste desafio que nasceu, em 2013, o GEstIC – uma equipa multidisciplinar e programa estruturado de seguimento de doentes com IC no Hospital Santo António.

Nos primeiros anos de atividade, Irene Marques questionava-se sobre o verdadeiro impacto deste trabalho: “A maioria dos doentes que observávamos eram muito idosos e tinham fração de ejeção preservada, para os quais nenhuma terapêutica parecia mudar o prognóstico. Foi assim que senti necessidade de saber mais, de fazer investigação clínica e um doutoramento que permitisse identificar quais os fatores que têm impacto significativo na qualidade de vida destes doentes.”

A investigação teve como objetivos caracterizar e estabelecer o prognóstico de doentes hospitalizados por insuficiência cardíaca, avaliar o impacto do GEstIC, validar para português o questionário Minnesota Living with Heart Failure Questionnaire (MLHFQ) e identificar os fatores que influenciam a qualidade de vida destes doentes. Entre as conclusões mais relevantes, destaca-se o impacto expressivo do GEstIC, com Irene Marques a referir que “a integração no programa levou a uma redução de 72% das hospitalizações por insuficiência cardíaca, 54% das hospitalizações por todas as causas e 39% das visitas urgentes no primeiro ano de seguimento”. Estes resultados traduziram-se também numa redução média de 12,6 dias de internamento por doente e numa poupança económica de 5440 euros por doente tratado.

A tese demonstra ainda que a pontuação total da versão portuguesa do MLHFQ está associada à classe NYHA, à distância percorrida no teste de 6 minutos de marcha, à fadiga avaliada pela escala de Borg e aos níveis de depressão e ansiedade segundo a Hospital Anxiety and Depression Scale, identificando três sub-scores principais: físico, emocional e social.

No estudo prospetivo QUALIFIER, verificou-se uma melhoria da qualidade de vida nos primeiros 10 meses de seguimento dos doentes acompanhados no GEstIC. “Entre um vasto leque de fatores, a implantação do dispositivo de resincronização cardíaca com função de pacemaker (CRT-P), quando indicado, foi o único associado a uma melhoria clinicamente importante da Qualidade de Vida”, refere a investigadora. Pelo contrário, classes avançadas da NYHA, hospitalização recente por insuficiência cardíaca e taxa de filtração glomerular inferior a 30 mL/min/1,73 m² estiveram associadas ao agravamento da qualidade de vida.

Para Irene Marques, este trabalho reforça a relevância dos programas multidisciplinares no tratamento desta doença crónica complexa e contribui para uma abordagem mais centrada naquilo que verdadeiramente importa aos doentes: “Este trabalho pretende contribuir para cuidados mais personalizados, ajustados ao que realmente importa aos doentes.”

(30/01/2026)