A obesidade não se trata a correr

Todos os anos multiplicam-se as publicidades com promessas: “perca 5 quilos em 2 semanas”, “resultados visíveis já na primeira semana”. A ideia de que tratar a obesidade é uma corrida contra o relógio está profundamente enraizada — e está errada. Não porque a ciência prove, sem margem para dúvida, que a pressa faz sempre mal. Está errada porque a própria ciência, quando se olha para ela com atenção, é bem mais incerta e mais interessante do que o slogan “devagar é sempre melhor” deixa perceber.

Vale a pena olhar para o que os ensaios clínicos mostram, porque as surpresas não são poucas.

A massa muscular nem sempre paga a fatura

A crença mais comum é a de que perder peso depressa custa sempre músculo. Um ensaio clínico iraniano, publicado em 2017, parece confirmá-la: comparando pessoas que perderam 5% do peso em cinco semanas com outras que perderam o mesmo em quinze, o grupo rápido perdeu proporcionalmente mais massa magra.

Mas um ensaio norueguês mais recente e com desenho ainda mais cuidado — as duas dietas com a mesma composição de proteína, gordura e hidratos, a mesma percentagem de peso perdida — não encontrou qualquer diferença entre grupos. E há mais: a queda no metabolismo basal que se costuma associar às dietas rápidas revelou-se, nesse estudo, temporária — desapareceu ao fim de um mês, assim que o peso estabilizou. Os próprios autores admitem que a literatura sobre este ponto está longe de ser consensual.

Um terceiro estudo, com mulheres na pós-menopausa a fazer uma dieta muito restritiva, mas rica em proteína (mais de metade das calorias vinham de fontes proteicas) e sob vigilância médica apertada, mostrou até uma redução dos marcadores de degradação muscular. Ou seja: o que protege o músculo pode não ser tanto a velocidade da dieta, mas a qualidade do desenho — sobretudo quanto à proteína.

O osso é outra conversa — e aqui a preocupação é real

Se a questão muscular é ambígua, a do osso não é — mas vale precisar do que se está a falar. Uma revisão publicada este ano na Lancet Diabetes & Endocrinology mostra que perder peso através de dieta (com ou sem exercício associado) se associa, de forma consistente ao longo de vários estudos, a perda de densidade óssea na anca a partir de cerca de 7% a 10% do peso corporal. Não é o mesmo que dizer que qualquer forma de perder peso tem esse efeito: a cirurgia bariátrica e os fármacos para perda de peso têm perfis de risco ósseo próprios, e geralmente mais acentuados. E não fica pelos números da densitometria: no ensaio Look AHEAD, mais de cinco mil pessoas com obesidade e diabetes tipo 2 foram seguidas durante quase uma década, e quem fez dieta e exercício de forma intensiva teve um risco 39% maior de fraturas de fragilidade do que o grupo de controlo.

É importante uma ressalva: esta evidência é sobretudo sobre a quantidade de peso perdido, mais do que sobre a velocidade a que se perde. Mas há uma revisão de 2014 que junta as duas coisas e é direta: a perda de peso rápida ou de grande dimensão tende a associar-se a mais perda óssea do que a perda lenta ou mais modesta, sobretudo quando não vem acompanhada de treino de força. E há boas notícias dentro desta má notícia: um estudo com doentes operados a obesidade mostrou que suplementar proteína, cálcio e vitamina D, associados a exercício, reduziu a perda óssea para menos de metade.

E as perturbações alimentares?

Aqui talvez esteja a maior surpresa. É comum ouvir-se que dietas restritivas “despoletam” compulsão alimentar em pessoas vulneráveis. É uma preocupação legítima, mas uma revisão sistemática de 2015 não encontrou provas consistentes de que a restrição calórica severa, por si só, aumente esse risco. Isto não quer dizer que o cuidado deva desaparecer — quer dizer que a equação “dieta agressiva = perturbação alimentar” é mais simples do que a realidade clínica.

Então qual é a velocidade certa?

A resposta honesta é: depende. E é aqui que a ciência, apesar de toda a incerteza que revela, acaba por confirmar algo muito simples — não existe uma velocidade universalmente certa de perder peso. Existe, isso sim, a necessidade de adaptar cada plano à pessoa: à sua proteína, ao seu exercício, à sua saúde óssea, à sua história com a comida, ao que consegue sustentar não durante seis semanas, mas durante os próximos vinte anos.

O exercício físico e uma alimentação individualizada — não uma dieta genérica copiada de uma revista — continuam a ser os dois pilares que realmente sustentam qualquer resultado. Sem eles, mesmo a perda de peso mais lenta e mais bem-intencionada corre o risco de ser apenas um parêntese.

Perder peso depressa não é, por si, um erro. O erro é acreditar que a velocidade é o que importa. O que importa é chegar lá de uma forma que o corpo — músculo, osso e cabeça incluídos — consiga aguentar.

 

Dra. Leila Cardoso – Coordenadora do Núcleo de Estudo de Obesidade da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

 

Este artigo foi publicado na CNN Portugal

(04/08/2026)