Envelhecer com futuro
Vivemos mais. E essa é, provavelmente, uma das maiores conquistas da nossa sociedade. Mas o verdadeiro desafio da longevidade já não é apenas acrescentar anos à vida. É conseguir acrescentar vida aos anos.
No Dia Internacional da Pessoa Idosa, importa celebrar aqueles que chegaram mais longe, as suas histórias, experiências e contributos. Mas importa também olhar para o futuro e perguntar: como queremos envelhecer? E que sociedade queremos construir para quem envelhece?
A longevidade com qualidade constrói-se ao longo de toda a vida. Constrói-se através da prevenção da doença e da promoção de estilos de vida saudáveis, da atividade física, de uma alimentação adequada, da vacinação, do sono, da saúde mental, das relações sociais e do controlo dos fatores de risco. Constrói-se também combatendo a solidão, o isolamento e o idadismo e criando condições para que as pessoas continuem a participar, decidir, aprender e contribuir. Porque viver mais é uma verdadeira conquista quando conseguimos viver esses anos com autonomia, dignidade, participação e qualidade de vida.
Mas envelhecer bem não depende apenas das escolhas individuais. Depende também da forma como a sociedade se organiza e, particularmente, da capacidade dos sistemas de saúde para responder às necessidades de uma população cada vez mais envelhecida. Quando a doença surge, cuidar bem de uma pessoa idosa exige frequentemente um olhar mais abrangente do que aquele que resulta da abordagem isolada de cada diagnóstico. A Geriatria traz precisamente esse olhar integrador, complementando o trabalho das diferentes especialidades e dos vários profissionais de saúde. Ajuda-nos a reconhecer que pessoas com a mesma idade e os mesmos diagnósticos podem ter necessidades, prioridades e objetivos profundamente diferentes.
Uma abordagem geriátrica de qualidade considera a doença, mas também a funcionalidade, a cognição, o estado emocional, a nutrição, a mobilidade, a fragilidade, a medicação e o contexto familiar e social. E procura conhecer algo que nenhum exame complementar consegue medir: o que é verdadeiramente importante para aquela pessoa. Significa estar atento ao que tantas vezes determina o futuro de uma pessoa mais velha: prevenir quedas e delirium, identificar desnutrição e sarcopenia, rever a medicação, evitar intervenções desnecessárias, promover a mobilização e a recuperação funcional e reconhecer precocemente situações de maior vulnerabilidade.
Significa, acima de tudo, procurar que as decisões em saúde sejam individualizadas, proporcionais e alinhadas com os valores, as necessidades e os objetivos de cada pessoa.
Preparar uma sociedade para a longevidade implica, por isso, investir simultaneamente na prevenção, na promoção da saúde e na qualidade dos cuidados prestados às pessoas mais velhas. Não devemos esperar pela doença, pela fragilidade ou pela dependência para começar a falar de envelhecimento saudável. E, quando surgem doença ou dependência, precisamos de cuidados que saibam tratar sem esquecer a pessoa que existe para além dos diagnósticos: prevenir o que é evitável, recuperar o que é possível, preservar a autonomia sempre que possível e cuidar com dignidade em todas as fases da vida.
Que neste Dia Internacional da Pessoa Idosa não celebremos apenas os anos vividos. Celebremos a possibilidade de envelhecer com projetos, relações, escolhas e propósito. Porque uma sociedade que cuida bem das suas pessoas mais velhas não está apenas a cuidar do seu passado. Está a cuidar do seu próprio futuro.
Dra. Rafaela Veríssimo – Coordenadora do Núcleo de Estudos de Geriatria da SPMI
Este artigo foi publicado no SAPO
(01/10/2026)




