História da SPMI

Os primeiros 40 anos da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

A história da SPMI começou com a aprovação dos estatutos por despacho ministerial de 14 de Dezembro de 1951. A 17 de Julho de 1952 teve lugar a primeira Assembleia Geral durante a qual foi eleita por aclamação a lista para a Direcção, assim constituída:

Presidente: Prof. Mário Moreira
Vice-Presidente: Prof. Alfredo Rocha Pereira
Secretário-Geral: Prof. Xavier Morato
Secretários-Adjuntos: Dr. Carlos Gomes de Oliveira; Prof. Ar-sénio Cordeiro
Tesoureiro: Dr. Alfredo Franco

A sessão inaugural da Sociedade realizou-se a 27 de Dezembro de 1952 na Sala dos Actos da Faculdade de Medicina de Lisboa, sob a presidência do Ministro da Educação Nacional. Para a posteridade ficou-nos uma fotografia da assistência que deixa transparecer o papel agregador que a Medicina Interna protagonizava na época: para além de alguns internistas como Eugénio Mac-Bride, Ducla Soares e Cristiano Nina, é possível identificar Celestino da Costa, catedrático de histologia, Alberto Mac-Bride, cirurgião, Diogo Furtado, neurologista, Juvenal Esteves, dermatologista, Castro Freire, pediatra, Manuel Frazão, cirurgião, etc. A Medicina Interna encontrava-se então num período áureo graças à influência de figuras tutelares como Pulido Valente e Fernando da Fonseca, poucos anos antes exonerados da Faculdade de Medicina por motivos políticos. Por outro lado os movimentos de separação das subespecialidades médicas eram ainda muito débeis pelo que a Medicina Interna continuava a ser a placa giratória de toda a atividade clínica.
Que já se tinham começado a sentir algumas ameaças de desagregação, as quais pareciam em fase de retrocesso, pode depreender-se do que consta do Relatório do ano académico apresentado em 1953 pelo Secretário-Adjunto, Dr. Gomes de Oliveira. Depois de se referir ao conteúdo da alocução inaugural do Presidente, Prof. Mário Moreira intitulada “Grandeza e Decadência da Medicina Interna”, escreve o seguinte:

«[…]manifesta-se no presente uma tendência marcada contra o espírito de cisão da Medicina em especialidades, que desumanizou a mesma, dividindo o doente em departamentos, cada um do foro de um especialista, ignorando ou esquecendo este o “todo” indivíduo no seu modo de reacção geral e particular e na interdependência desses mesmos departamentos.[…]Devemos insistir em que o doente é um “todo”; que não é o fígado ou o coração, o rim ou o estômago que estão doentes, é o homem somático e psíquico, no físico e no espiritual, e é a doença nas suas multiformes traduções clínicas que o médico tem de considerar nas relações com o doente. E só o Internista, honestamente informado e actualizado, poderá compreender o doente no seu conjunto humano […] Assim justifica-se inteiramente o prestígio que volta a ter por toda a parte a Medicina Interna e que no nosso País não deixou de ser mantido e incarnado, felizmente, em numerosos e ilustres clínicos dentro e fora desta Sociedade, herdeiros da boa e velha tradição médica portuguesa[…]»
Na sessão inaugural, para além do Presidente, falou também o Prof. Vaz Serra em representação da Sociedade Internacional, que a certa altura afirmou: «A grande ambição da Medicina Interna de hoje está no progresso do conhecimento científico, isto é, a substituição da probabilidade pela certeza, a dúvida pela segurança, a sombra pela claridade».
No decorrer do seu 1º ano académico (1952-1953) a SPMI realizou 4 reuniões científicas em que foram apresentadas 12 comunicações entre as quais estavam incluídos trabalhos da área da Pediatria, da Neurologia e das técnicas de laboratório, o que revela, mais uma vez, a activa participação das diversas disciplinas clínicas na vida da Sociedade. Note-se que as reuniões tinham sempre lugar no Hospital de Santo António dos Capuchos, na chamada Sala da Sociedade Médica dos HCL.
Entretanto a Direcção decidiu criar uma revista para divulgar as comunicações científicas mas por não ter meios financeiros suficientes, fez um acordo com o Jornal do Médico, através do seu Director, o Dr. Armando Pombal, que gratuitamente passou a reunir as separatas numa publicação anual, o Boletim da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.
O primeiro número do Boletim surgiu no início de 1954 e incluía 10 das 12 comunicações apresentadas nas sessões científicas. Terminava com o «Relatório do Secretário Geral e do Tesoureiro» respeitante ao ano de 1952-1953 apresentado pelo Dr. Gomes de Oliveira, em substituição do Prof. Xavier Morato que entretanto tinha sido empossado no cargo de Presidente da Sociedade de Ciências Médicas.
No seu relatório, o Dr. Gomes de Oliveira fazia algumas considerações acerca da Medicina Interna que a seguir transcrevemos:

«Os subsídios trazidos à compreensão da Patologia pela Fisiologia, Fisiopatologia, Histologia, Biologia, etc. transformaram muitas noções erradas, assentes em teorias mais ou menos especulativas, em factos de verificação exacta que abriram largos caminhos aos actuais conhecimentos e permitem conhecer, identificar e interpretar a doença com cada vez menor margem de erro.
E a Medicina Interna é como que a escada interior que liga os diferentes andares e os corredores dos vários pisos que constituem o edifício da medicina. Não é de estranhar portanto considerarmos que toda a contribuição que os estudiosos da Medicina Interna possam dar no sentido de aperfeiçoar o seu conhecimento, actualizá-lo e divulgá-lo, será de proveito não só para a ciência médica em geral, mas ainda, em particular, para a sua aplicação prática ao doente, razão de ser de todas as nossas preocupações.»
No 2º ano de existência da SPMI (1953-1954), o Dr. Gomes de Oliveira manteve-se no exercício das funções de Secretário Geral e apresentou a 30 de Julho de 1954 o respectivo relatório anual. Segundo consta deste documento realizaram-se durante esse ano 8 sessões em que foram apresentadas 16 comunicações, três das quais numa reunião conjunta com a Sociedade Portuguesa de Oto-Neuro-Oftalmologia. O número de sócios da SPMI era nessa altura de 81, dos quais 56 efectivos e 25 agregados.
Nos anos que se seguiram e até 1963 a vida da SPMI continuou a processar-se nos mesmos moldes, mantendo-se a publicação anual do Boletim. Neste período, (1954-1963) realizaram-se novas eleições para os corpos gerentes em 1954, 1956, 1958 e 1960, sendo os seguintes elementos que integraram as diversas Direcções:
Direcção eleita em 30.07.1954: manteve a constituição da anterior, com as seguintes alterações: o Dr. Gomes de Oliveira passou a ocupar o cargo efectivo de Secretário-Geral que até então desempenhava em substituição do Prof. Xavier Morato, tendo entrado para o lugar Secretário Adjunto o Dr. Rafael Adolfo Coelho.

Direcção eleita a 27.07.1956 e reeleita em 18.07.1958
Presidente: Prof. Augusto Vaz
Vice-Presidentes:    Prof. Carlos Salazar de Sousa; Prof. Carlos Ramalhão
Secretário-Geral:     Dr. Carlos Gomes de Oliveira
Secretários-Adjuntos: Prof. Mário de Alemquer; Dr. Pena de Carvalho
Tesoureiro: Dr. Fernando Leal

Direcção eleita em 9.12.1960
Presidente: Prof. Cerqueira Gomes
Vice-Presidentes:    Prof. Mário Trincão; Prof. Armando Ducla Soares
Secretário-Geral:    Dr. Carlos Gomes de Oliveira (substituído em 29.06.62 pelo Prof. Mário de Alemquer)
Secretários-Adjuntos:    Dr. Luís Abecasis; Dr. Jacinto Simões
Tesoureiro: Dr. Ludgero Pinto Basto

Entre 1954 e 1963 a vida da SPMI ficou marcada por alguns acontecimentos que merecem referência especial. O ano lectivo de 1954-1955 abriu a 3 de Dezembro de 1954 com uma conferência do Prof. Mário Moreira intitulada “Medicina do Corpo, Medicina do Espírito” e a 30 de Abril de 1955 realizou-se a primeira sessão no Porto, em obediência a um desejo de descentralização das actividades da Sociedade.
No ano lectivo 1955-1956 há que mencionar a sessão solene de homenagem à memória do Prof. Egas Moniz na qual esteve presente o Ministro da Educação Prof. Leite Pinto.
O ano lectivo 1956-1957 abriu a 23 de Novembro de 1956 com uma palestra do então Presidente da SPMI, Prof. Vaz Serra, intitulada “Direitos e Aspirações da Medicina Interna”.
Durante o ano lectivo 1957-1958 a Sociedade, para além das sessões ordinárias, organizou, entre 6 de Maio e 18 de Junho de 1958, três colóquios com um total de 10 sessões e 26 comunicações, subordinados aos seguintes temas: «Neuroses», «Poliomielite» e «Diabetes».
O ano lectivo 1958-1959 só foi inaugurado a 30 de Janeiro de 1959 sob a presidência do Dr. Mário Carmona, então Enfermeiro-Mor dos Hospitais Civis de Lisboa. A alocução inaugural sob o título “O erro na clínica” esteve a cargo do Prof. Augusto Vaz Serra. A 28 de Novembro de 1959 a reunião da Sociedade realizou-se pela primeira vez na Faculdade de Medicina de Coimbra.
Durante o ano de 1960 apenas se realizou uma sessão a 9 de Dezembro na qual foi eleita a Direcção para o biénio 1960-1962, presidida pelo Prof. Cerqueira Gomes.
A 3 de Fevereiro de 1961 o novo Presidente inaugurou o ano académico com uma alocução intitulada «Porquê uma Sociedade de Medicina Interna?». Nos dias 5, 6 e 7 de Abril teve lugar um simposium sobre «Patologia do Rim» a que se seguiram, até ao fim desse ano, mais cinco sessões ordinárias.
Em 1962 realizou-se, entre 29 de Março e 4 de Abril, um «Colóquio sobre Cancro» que incluiu um total de 11 comunicações  em que participaram especialistas de várias áreas.
A partir daí as informações acerca das actividades da SPMI começaram a escassear: A última «acta das sessões» tem a data de 3 de Abril de 1962 e o último «Boletim», o décimo, contendo as comunicações do «Colóquio sobre o Cancro», foi distribuído em 1963.
Apesar disso, através da consulta de documentação dispersa foi possível reconstituir os acontecimentos mais salientes da vida da Sociedade entre 1963 e 1983. A 4 de Fevereiro de 1963, o Prof. Cerqueira Gomes abriu o ano académico com uma conferência intitulada «O valor da anamnese». Nesse ano realizaram-se mais 4 sessões, a última das quais convocada pelo Vice-Presidente Prof. Armando Ducla Soares, em substituição do Secretário-Geral, Mário de Alemquer, entretanto falecido.
Em 1964 realizaram-se duas sessões, uma a 24 de Janeiro e outra a 22 de Maio, e nesse mesmo ano o Prof. Xavier Morato, que tinha sido o primeiro Secretário-Geral da SPMI, pediu ao Tesoureiro, sem motivo aparente, para “eliminar” o seu nome da lista de sócios.
A 19 de Fevereiro de 1965 realizou-se uma sessão ordinária convocada pelo Secretário, Dr. Jacinto Simões, durante a qual foram apresentadas duas comunicações.
No final teve lugar uma Assembleia Geral em que foi eleita a Direcção para o biénio 1965-1967 que ficou assim constituída:

Presidente: Prof. Armando Ducla Soares
Vice-Presidentes:     Prof. Joaquim Antunes de Azevedo; Prof. Esteves Pinto
Secretário-Geral: Dr. Jacinto Simões
Secretários-Adjuntos: Dr. Aragão de Barros; Dr. Pereira Leite
Tesoureiro: Dr. Luís Abecasis

Durante o ano de 1965 a SPMI realizou apenas uma sessão conjunta com a Sociedade Portuguesa de Anestesiologia, preenchida por uma conferência do Dr. Paul Herzog do Karolinska Hospital, sobre equipamento respiratório nas unidades de cuidados intensivos.
No ano de 1966 a Sociedade limitou-se a dar o seu patrocínio às Jornadas da «Europa Médica» realizadas em Outubro. Entretanto algumas cartas do Tesoureiro, Dr. Luís Abecasis, dirigidas nesse mesmo ano a diversos sócios, revelam dificuldades na cobrança das cotas.
A 6 e 7 de Abril de 1967, a SPMI além de organizar um simposium sobre «Novas aquisições na patogenia das anemias», apenas deu o seu patrocínio a um «Colóquio e Ciclo de Conferência sobre Hepatologia» organizado pela Secção de Gastroenterologia do Serviço Universitário de Propedêutica Médica do Hospital de Santa Maria, entre 8 e 13 de Maio de 1967, no qual intervieram vários oradores estrangeiros.
Em 1968 a SPMI realizou, a 7 e 8 de Maio, duas sessões dedicadas a assuntos hematológicos nas quais colaboraram autores nacionais juntamente com convidados estrangeiros.
A partir daí, e durante 17 anos, não existe mais nenhum registo de reuniões científicas organizadas pela Sociedade.
Nos finais de 1968 verifica-se uma troca de correspondência do Prof. Antunes de Azevedo com o Presidente e o Secretário-Geral, com o objectivo de constituir a lista para a Direcção a eleger no ano seguinte. O Prof. Antunes de Azevedo foi proposto para Presidente e, para Vice -Presidente pelo Porto, são sugeridos os nomes dos Profs. Ferraz Júnior e Emídio Ribeiro. Contudo a eleição desta lista não chega nunca a concretizar-se.
A 12 de Dezembro de 1968, na resposta a um pedido da Ordem dos Médicos acerca das actividades da SPMI para o ano seguinte, considera-se «prematuro anunciar o programa científico da Sociedade para 1969 por estar na fase de organização». Curiosamente este ofício é assinado pelo Sr. Rui Anselmo, funcionário superior administrativo dos HCL que, desde o nascimento da Sociedade, e até hoje, tem secretariado a Direcção com extraordinária competência e dedicação.
No decurso de 1969 existem cartas dos Profs. Antunes de Azevedo, Mário Trincão e Augusto Vaz Serra, que são igualmente dirigidas ao Sr. Rui Anselmo o que parece traduzir que a Direcção se mantinha inactiva. Dos 3 anos seguintes não foi encontrado qualquer registo das actividades da SPMI.
Em 1973 o Tesoureiro, Dr. Luís Abecasis, faz algumas tentativas para cobrar cotas em atraso e em 1974 pede a demissão do seu cargo. A última carta dirigida a sócios com o objectivo de actualizar cobranças tem a data de 8 de Novembro de 1974 e é enviada por um “Tesoureiro” não identificado.
Como parece evidente, a SPMI tinha entrado numa lenta agonia que a conduziria a um eclipse total.
Só cerca de 9 anos depois, ou seja, a 5 de Fevereiro de 1983, por ocasião das Jornadas de Medicina Interna de Coimbra, é que se realizou por iniciativa do «Prof. Armando Porto e de outros colegas que a ele se agregaram» (tal como consta de uma carta circular de 15 de Março do mesmo ano assinada pelo Prof. Armando Ducla Soares), uma reunião informal com o fim de relançar as actividades da SPMI. Nesta circular apelava-se para «a compreensão da parte dos colegas da Medicina Interna e das suas subespecialidades» com o objectivo de «obter a maior colaboração possível nesta obra de renascimento da Sociedade».
A 28 de Maio de 1983 efectuou-se uma Assembleia Geral da SPMI na qual estavam presentes apenas 4 sócios efectivos. Depois de aberta a discussão em que intervieram os Drs. Jacinto Simões e Mário Quina, foi apresentada pelo Dr. Soares de Sousa uma proposta no sentido de serem admitidos como sócios da SPMI todos os internistas presentes que, de acordo com os estatutos, tivessem condições
para tal.
Depois de aprovada por unanimidade esta proposta, foram admitidos 120 novos sócios cujos nomes constam das Actas da reunião. Procedeu-se depois à eleição da Direcção para o biénio 1983-1985 a qual ficou assim constituída:
Presidente: Prof. Armando Ducla Soares
Vice-Presidentes:    Prof. Cerqueira Magro; Prof. Armando Porto
Secretário-Geral: Dr. Barros Veloso
Secretários-Adjuntos:    Dr. Domingos Antunes de Azevedo; Dr. Fernando Santos
Tesoureiro: Dr. António Castro

Em Fevereiro de 1984 realizou-se uma Assembleia Geral em que foram aprovados os novos Estatutos pelos quais se ficou a reger a vida da SPMI.
Finalmente a 2 de Março de 1985 teve lugar na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa uma reunião científica que foi convocada com o nome de «1as Jornadas da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna».
A primeira parte foi dedicada a analisar vários aspectos das «Perspectivas actuais da Medicina Interna» e abriu com uma das últimas intervenções públicas do Prof. Armando Ducla Soares da qual transcrevemos algumas das passagens mais significativas.
«Recordo-me ainda, perfeitamente, do estilo e da praxis da Medicina Interna na rigorosa semiologia física da Escola Francesa de que havia exímios cultivadores na Faculdade de Medicina de Lisboa. Era a cristalização, melhor, a consagração das prodigiosas qualidades de observadores e intérpretes que fizeram da França a Meca médica com as grandes figuras do século XIX, que se projectaram em pleno primeiro quartel do século XX.
E assisti à “revolução” resultante da introdução, nas ciências clínicas, das conquistas das ciências básicas, da física, da química, da matemática, das ciências biológicas, etc., “revolução” devida, sobretudo, às alturas da cultura médica germânica e de outras áreas da Europa Central (Áustria, Hungria, etc.) […]
Foi o momento da abertura larga do aparecimento da maioria das especialidades da Medicina Interna, agora alicerçada em rigorosos processos de observação física e química e apoiada na Anatomia Patológica, que passara a ser peça fundamental de demonstração.
A própria Guerra de 1939, que transformou a Europa numa fornalha de desgraça e destruição, trouxe, além do colapso do progresso germânico, o êxodo de alguns dos maiores cientistas europeus para os Estados Unidos onde o clima tranquilo e receptivo das instituições científicas levaria ao cume o desenvolvimento da actual medicina, não só como Medicina total, científica e objectiva, como também das
especialidades e subespecialidades que atingiram o grau de perfeição que todos hoje conhecemos. […] Só que o estudo extremamente profundo na patologia levou ao aparecimento de técnicas tão sofisticadas, que foi necessário criar especialidades que iam afastando o conhecimento do Homem total do especialista. […]. Na realidade, se as especialidades são indispensáveis para a elucidação de problemas específicos da patologia de um órgão ou sistema, só excepcionalmente cumprem a função da compreensão fisiopatológica total do doente. Daqui que a Medicina Interna saiba colher das especialidades os dados indispensáveis para a sua prática, fazendo uma síntese que englobe o doente na larga visão psíquica e somática dos seus sofrimentos».
A SPMI entrava assim na sua 2ª fase, em que partia da estaca zero. Mas os apelos do Prof. Armando Ducla Soares não conseguiam evitar um movimento irreversível e já consumado: a separação das subespecialidades médicas. Daí em diante a Medicina Interna teria de assumir a sua própria identidade e iria tentar sozinha recuperar o tempo perdido.
Nos dias 4 e 5 de Abril de 1986 a SPMI realizava, nas instalações da Secção Regional do Porto da Ordem dos Médicos, as suas 2as Jornadas, no fim das quais foi eleita a Direcção para o biénio 1986-1988, que ficou assim constituída:

Presidente: Prof. Cerqueira Magro
Vice-Presidentes:    Prof. Armando Porto; Dr. Barros Veloso
Secretário-Geral: Dr. Luís Pires Gonçalves
Secretários-Adjuntos:    Dr. António Maria Meirelles; Dr. Fernando Santos
Tesoureiro: Drª Ermelinda Pereira

No início desta nova fase, as actividades da SPMI limitavam-se à organização de uma reunião anual. Em 1987 essa reunião teve lugar a 30 de Maio no anfiteatro da Universidade de Coimbra, e abriu com um período de reflexão sobre «O âmbito actual da Medicina Interna» seguido da apresentação de casos clínicos e da discussão de «posters». Pela primeira vez registou-se uma elevada participação de internistas, com um número de «posters» muito superior àquilo que era esperado, facto que colocou sérios problemas à Direcção que, apanhada de surpresa, se viu obrigada a proceder a uma selecção de última hora. Ficava clara a vontade de participação dos internistas nas actividades da Sociedade a qual passou a constituir o espaço privilegiado para os seus encontros e para a apresentação da sua produção científica.
No ano seguinte (1988) a reunião realizou-se a 14 de Maio, na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa e iniciou-se com uma mesa redonda com o título «Medicina Interna e especialidades: que espaço?» em que participaram os Drs. Mergulhão Gomes, Barros Veloso, Manuel Miraldo, Joaquim Antunes de Azevedo e Bonnet Monteiro.
Na Assembleia Geral com que terminou esta reunião foi eleita a Direcção para o biénio 1988-1990 que ficou assim constituída:

Presidente: Prof. Armando Porto
Vice-Presidentes:    Prof. Levi Guerra; Dr. Barros Veloso
Secretário-Geral: Dr. Luís Pires Gonçalves
Secretários-Adjuntos:    Dr. António Maria Meirelles; Dr. Fernando Santos
Tesoureiro: Dra. Maria Ermelinda Pereira

Em 1989 a reunião da SPMI realizou-se a 26 e 27 de Maio no Hospital de São João do Porto, e abriu com uma conferência do Prof. Levi Guerra intitulada «O sentido e a necessidade da Medicina Interna na vida hospitalar».
Mais uma vez se registou um enorme afluxo de «posters» e de comunicações livres que veio confirmar o crescimento e a renovada vitalidade da Sociedade, cujos primeiros sinais tinham sido detectados, dois anos antes, na reunião de Coimbra.
Entretanto a Direcção tomou a iniciativa de dinamizar as actividades regionais da SPMI e de promover contactos com as várias organizações internacionais ligadas à Medicina Interna. Dentro desta linha, fez-se representar no 19º Congresso da ISIM (Sociedade Internacional de Medicina Interna), (Bruxelas 29 de Agosto de 1988), no Congresso da Federação Ibero-Americana (Alicante, 13 de Setembro de 1988), na 7ª Conferência Europeia da AEMIE (Bruxelas, 17 de Maio de 1989), e no 20º Congresso da ISIM (Estocolmo, 17 de Junho de 1990).
Nesta última reunião internacional, a representação portuguesa foi a segunda mais numerosa, logo a seguir à representação sueca.
Entretanto foi decidido realizar o 1º Congresso Nacional de Medicina Interna que teve lugar no Auditório dos Hospitais Universitários de Coimbra a 4 e 5 de Maio de 1990. O Congresso abriu com uma conferência do Prof. Armando Porto intitulada «O Presente e o Futuro da Medicina Interna», tendo registado «grande participação e elevado número de comunicações» como consta do relatório do Secretário-Geral, Dr. Pires Gonçalves.
Para o dia 4 de Maio, primeiro dia do Congresso, tinha sido convocada uma Assembleia Geral para discussão de um projecto dos novos Estatutos da SPMI. A justificação para esta iniciativa da Direcção consta da própria convocatória: «Dado o crescimento do número de associados da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, julgou a Direcção útil promover alterações aos Estatutos que permitam acompanhar e desenvolver esse crescimento».
Nos novos Estatutos, que foram aprovados por maioria, criava-se a categoria de sócios honorários, alargava-se a composição da Direcção para 9 membros (com 3 Vice-Presidentes e 3 Secretários-Adjuntos) e previa-se a organização, no seio da Sociedade, de «Núcleos de Estudo» em áreas específicas da Medicina Interna.
Devido a aspectos formais relacionados com a legalização e registo notarial dos novos Estatutos, a eleição dos corpos Gerentes da SPMI, que deveria realizar-se em 1990, foi adiada, mantendo-se em exercício a anterior Direcção.
Entretanto, e na sequência de contactos de elementos da SPMI com o Presidente da AEMIE (Association Européenne de Medicine Interne d’Ensemble) foi decidido realizar em Lisboa o XI Congresso desta organização europeia de Medicina Interna, o qual teve lugar no Palácio de Congressos da FIL nos dias 4, 5 e 6 de Novembro de 1991.
Durante este Congresso em que intervieram vários portugueses como conferencistas e como «co-chairmen», foram apresentados numerosos «posters» e comunicações-livres da autoria de internistas portugueses. À margem do Congresso foram escolhidos dois membros da Direcção da SPMI (Prof. Armando Porto e Dr. Barros Veloso) para integrarem o Forum dos Presidentes das Sociedades de Medicina Interna da Europa, e o Conselho de Administração da AEMIE.
No dia 6 de Novembro de 1991, enquanto decorria o XI Congresso da AEMI, realizou-se na sede da Ordem dos Médicos em Lisboa uma Assembleia Geral para eleição dos Corpos Gerentes para o biénio 1991-1993. A nova Direcção ficou assim constituída:

Presidente: Dr. Barros Veloso
Vice-Presidentes:    Prof. Levi Guerra; Dr. Santana Maia; Dr. Luís Pires Gonçalves
Secretário-Geral: Dr. Luís Dutschman
Secretários-Adjuntos:    Dr. José Ávila Costa; Dr. Faustino Ferreira; Dr. Carlos Soares de Sousa
Tesoureiro: Dr. Fernando Santos

Revistos os estatutos e ultrapassada a fasquia dos 800 sócios, pode dizer-se que, a partir de 1991, a SPMI entrou na sua 3ª fase. A Direcção apresentou então um programa que incluía a criação de Núcleos de Estudo, a realização de reuniões regionais e o incremento das relações internacionais. O II Congresso Nacional de Medicina Interna que entretanto teve lugar em Lisboa, em Novembro de 1992, constituiu, pelo nível e número de participantes, mais um momento importante da vida da Sociedade.
Finalmente a Direcção tomou a iniciativa de lançar a Revista Medicina Interna, projecto que se impunha concretizar face ao dinamismo actual dos internistas portugueses.

Por Barros Veloso

Reprodução Parcial do texto publicado no Vol 1, Nº1, do ano 1994 da Revista Medicina Interna.