Fratura proximal do fémur: Ortogeriatria do HSFX com avaliação geriátrica global

Com o envelhecimento da população, a fratura proximal do fémur acontece cada vez mais em pessoas com multimorbilidade e síndromes geriátricas. Como a taxa de mortalidade e a deterioração funcional é elevada neste tipo de acidentes, quer o Serviço de Ortopedia como o Serviço de Medicina Interna do Hospital de São Francisco Xavier – Centro Hospitalar Lisboa Ocidental (CHLO), apostaram na criação de uma Unidade de Ortogeriatria (UO).

“Muitos destes doentes, que dão entrada nas Urgências por causa de uma queda, podem ter complicações no pré e no pós-operatório por causa da própria fratura e consequente imobilidade, de doenças crónicas ou de condições agudas subjacentes à causa da queda”, esclarece Sofia Duque, a médica internista que propôs a criação da Unidade.

Sofia Duque

Deste modo, desde a entrada no hospital até ao momento da alta, é feita uma avaliação por parte dos ortopedistas, dos internistas, da nutricionista, das fisioterapeutas, do fisiatra, das farmacêuticas, das enfermeiras e da assistente social. “Estas são as áreas-chave, mas, obviamente, podemos necessitar de chamar a Cardiologia, a Neurologia ou quaisquer outras especialidades”, refere.

Antes da UO, o processo assentava no apoio da Medicina Interna apenas quando os quadros clínicos se agudizavam. “Quando chegávamos já se estava perante um edema pulmonar, um tromboembolismo pulmonar, uma sépsis, uma descompensação grave da diabetes, etc.”, diz Sofia Duque, em entrevista à Just News, no âmbito de uma reportagem sobre a Unidade, que pode ser lida no Hospital Público de setembro.

Com a avaliação precoce do paciente por diferentes profissionais, previnem-se e controlam-se também complicações que possam impedir a cirurgia num período de 48 horas, o que é recomendável nos casos de fratura proximal da anca.

Diminuir a duração do internamento “e melhorar a recuperação funcional”

Quanto ao número de doentes que podem integrar a Unidade, não há limite: “Consideramos que não devemos impor restrições no acesso. Se a pessoa apresenta os critérios necessários, é encaminhada para nós.”

“Ainda estamos a analisar os resultados, mas sabe-se que estes projetos permitem diminuir o número de complicações, a duração do internamento e a mortalidade e melhorar a recuperação funcional”, sublinha Sofia Duque.

Outra preocupação da equipa no período de assistência da Unidade de Ortogeriatria do CHLO é apostar na prevenção de quedas e fraturas futuras. Por outro lado, é também importante na área da formação, conforme indica a médica: “A UO vem possibilitar aos médicos internos o treino prático em Geriatria, já que o doente com fratura do colo do fémur é o paradigma do idoso frágil”.

Uma equipa pluridisciplinar acompanha os idosos com fratura proximal do fémur desde a entrada na Urgência do HSFX.

Ortopedia: “Podemos dar alta mais cedo”

Para o diretor do Serviço de Ortopedia do CHLO e presidente eleito da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (2019/2020), Guimarães Consciência, a UO é “uma mais-valia para o trabalho dos ortopedistas” e, por isso mesmo, beneficiará qualquer serviço dessa especialidade.

“O nosso papel é tratar a patologia ortopédica, as restantes complicações são, por uma questão de formação, da competência da Medicina Interna e/ou de outras especialidades.”

E continua: “Ao conseguir-se, desde a entrada no hospital, controlar os riscos que podem impedir o tratamento e a recuperação da fratura, o doente sofre menos, ganha autonomia mais cedo e o próprio Serviço de Ortopedia sai beneficiado, porque ”

Com a falta de camas que se sente no seu Serviço, Guimarães Consciência acredita que a UO parece ser um projeto bem conseguido, que também trará vantagens em termos logísticos. Contudo, realça, “é preciso agilizar os protocolos entre as várias especialidades porque, logo que o utente tenha alta da parte ortopédica, deve ser encaminhado para outro serviço, para controlo de eventual patologia acessória”.

Apesar de ser também responsável pela Unidade, o ortopedista faz questão de sublinhar que quem teve a ideia foi Sofia Duque e que o que está em causa é que se trata de “uma unidade transversal, que funciona bem, porque todos acreditamos na sua mais-valia”.

E sublinha: “Estas unidades já existem noutros países há alguns anos e com muito bons resultados. Portugal devia apostar mais nestes projetos e, como se pode ver pelo nosso exemplo, a criação de uma unidade não implica um espaço concreto, ou sequer mais instalações.”

“Antes deste projeto, a Medicina Interna tinha um papel reativo”

Luís Campos, diretor do Serviço de Medicina IV do HSFX-CHLO e atual presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), foi quem inspirou e impulsionou a criação da Unidade de Ortogeriatria.

No seu entender, “é preciso mudar o paradigma da assistência aos doentes ortopédicos, passando de uma forma reativa para cuidados pró-ativos e preventivos, porque grande parte deles são idosos com multimorbilidade, particularmente os doentes com fraturas do colo do fémur”.

Luis Campos

Faz também questão em enaltecer o empenho de toda a equipa e a colaboração específica do Serviço de Ortopedia, mas realça o facto de “termos encontrado a pessoa certa para o projeto certo, ou seja a Dr.ª Sofia Duque, que foi interna do Serviço e que já tinha realizado um estágio durante o seu internato numa unidade de Geriatria, em Espanha”.

“Trata-se de uma pessoa motivada, profunda conhecedora desta área de competência da Medicina Interna, focada nos objetivos, dedicada aos doentes e uma das líderes atuais do Núcleo de Geriatria da SPMI”, sublinha Luís Campos, que enumera as vantagens da Unidade de Ortogeriatria do CHLO:

“Além de ser uma grande mais-valia para os doentes — diminuindo as complicações, melhorando resultados e reduzindo custos –, potencia também oportunidades de investigação e é um espaço de formação pré-graduada, que poderá ser aproveitado no âmbito do ensino da Geriatria na Nova Medical School, assim como de formação pós-graduada. Na prática, é disponibilizada a internos do Serviço de Medicina Interna, mas também a outros de diferentes especialidades, mesmo que integrem outros hospitais ou centros de saúde.”

(11/09/2017)