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A eternidade das palavras
A revista Medicina Interna cumpre 16 anos de vida. Ao longo desse tempo, os internistas portugueses têm contribuído decisivamente para a sua existência com a publicação de artigos de qualidade científica assinalável. Importa por isso fazer uma reflexão sobre as motivações, contrariedades e desafios que se colocam aos autores, agora e no futuro.
Os casos clínicos são a principal fonte de artigos para a revista. Em muitos deles o elevado interesse didáctico fundamenta a sua publicação. Noutros, a originalidade e a complexidade clínica são determinantes na sua valorização pelo Conselho Redactorial. Infelizmente, os artigos originais são em menor quantidade do que aquela que todos nós desejaríamos. Muitos desses trabalhos resultam de séries de doentes nem sempre de natureza prospectiva. Existem várias razões para que assim aconteça. A dificuldade em concentrar um elevado número de doentes numa patologia mais específica é consequência directa do ecletismo próprio da Medicina Interna. Na maioria dos casos, a prática assistencial encontra-se dissociada da investigação em ciência básica. O número reduzido de laboratórios de ciência básica nas áreas da genética, bioquímica e imunologia que colaboram em proximidade com os departamentos clínicos tem limitado o alcance da investigação clínica na Medicina Interna.
A preparação por vezes insuficiente dos médicos recém‑formados nas áreas da metodologia de investigação, estatística e publicação de artigos coloca-lhes obstáculos exigentes. Por outro lado, muitos destes jovens médicos iniciam o seu Internato com uma carga assistencial crescente no serviço de Urgência que os desgasta fisicamente, consumindo o tempo necessário ao trabalho científico. Nalguns serviços, a ausência de uma cultura de produção científica escrita é dominante. Torna-se então mais fácil a acomodação por parte do jovem médico a uma actividade meramente assistencial.
Embora a bondade do actual regulamento da avaliação final do Internato pretenda que os futuros internos publiquem mais artigos científicos e conduzam uma actividade de investigação mais credível e duradoura ao longo do Internato, na prática, esse esforço perece imediatamente após o exame final. Alguns dos artigos aceites na nossa revista para publicação com alterações propostas pelos peritos acabam muitas vezes por não ser publicados porque os autores deixaram de ter interesse na sua publicação logo após a obtenção do título de especialista. Por outro lado, correremos sempre o risco de que alguns colegas possam vir a descurar parte da sua aprendizagem na actividade assistencial ao longo do Internato Complementar em benefício dum curriculum artificial construído apenas à base de publicações e comunicações - a vulgarmente denominada “curriculite”.
Sendo a revista trimestral, existe um limite no número de artigos a publicar anualmente. Existem também dificuldades inerentes ao facto de os seus regulamentos imporem para cada artigo duas peritagens independentes. A actividade desses peritos foi sempre exercida graciosamente e na base da boa vontade. No entanto, nem sempre a resposta foi célere por motivos das suas atarefadas vidas profissionais. Sendo todos os peritos escolhidos em função do rigor, da qualidade científica e idoneidade, existe uma natural limitação nas opções existentes, comprometendo o número de peritos disponíveis. Por fim, nalguns casos, os próprios autores contribuíram para o atraso na implementação das alterações propostas pelos peritos.
Da parte da Direcção da revista tem existido nos últimos anos um olhar particularmente atento ao que de melhor se apresentou nos vários Congressos Nacionais de Medicina Interna. Em função dessa atenção foram enviadas cartas aos autores dos trabalhos mais promissores incentivando-os a enviar esses trabalhos para publicação na nossa Revista. Essa acção de incentivo, à partida sem qualquer compromisso de aceitação do artigo, tem dado os seus frutos e esperamos que a motivação dos Internistas em publicar continue em franco crescimento. Importa ainda salientar que um trabalho científico sólido ao longo do Internato do Complementar de Medicina Interna trará inevitavelmente benefícios à actividade clínica do interno, dando-lhe uma sustentação mais erudita. Desejaríamos também uma maior contribuição de artigos por parte dos Hospitais Distritais que pela sua condição por vezes periférica se concentram habitualmente na actividade assistencial já de si exigente.
Com a partida do saudoso Sr. Anselmo ficámos mais pobres. O seu olhar sibilino sobre a qualidade literária dos textos da revista deixará a todos eternas saudades. A simpatia natural de alguém desde sempre disposto a trabalhar em prol da Medicina Interna portuguesa perdurará e inspirar-nos-á no futuro. No Reino dos Céus, a beleza das suas palavras tornou-se agora eterna.
João Sequeira |
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