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  Agosto 2002 Artigos Anteriores

Rapid measurement of B-Type Natriuretic Peptide in the emergency diagnostic of heart failure

A.S. Maisel and others
N Engl J Med, 2002; 347: 161-67
http://content.nejm.org/cgi/content/abstract/347/3/161

Comentário: Dr João Gonçalves Pereira (Assistente de Medicina Interna do Hospital de São José)

A disfunção ventricular esquerda, independentemente da sua etiologia, leva ao desencadear duma resposta sistémica com o fim de promover a manutenção da perfusão de sangue aos diversos orgãos.
A persistência dessa resposta (em particular mediada pela angiotensina, pela noradrenalina e pela endotelina) acaba por promover a falência do sistema cardiovascular e, em particular, a insuficiência cardíaca.
A ausência de definições precisas de insuficiência cardíaca têm dificultado a quantificação da sua prevalência. De facto nenhum elemento de observação clínica é patognomónico desta patologia. No entanto dados retirados do estudo de Framingham referem que em média cerca de 20% do tempo de vida da população com mais de 50 anos é passado com doença cardio-vascular e, em particular, insuficiência cardíaca (1) .
O ecocardiograma, nomeadamente a determinação da fracção de ejecção, têm sido considerados o “gold standart” do diagnóstico desta patologia. No entanto a gravidade da sintomatologia e mesmo o prognóstico têm escassa relação com esses dados ou com os elementos de observação clínica(2).
Para além disso, em ambiente de urgência, torna-se pouco exequível a realização deste exame, muitas vezes não disponível e outras vezes dificultado pela difícil colaboração do doente dispneico.
Esperava-se assim um elemento clínico-laboratorial que ajudasse a identificar correctamente esta síndroma e a orientar a terapêutica dos doentes com dispneia aguda.
O péptido natriurético tipo B é produzido exclusivamente nos ventrículos em resposta ao aumento do volume telediastólico. Induz perifericamente vasodilatação arterial, excreção renal de água e sódio, ajudando a modular a resposta compensadora neuro-hormonal já referida(3). Contribui assim com um efeito “negativo” na compensação hemodinâmica, ajudando à homeostasia a qual, à semelhança da generalidade dos outros sistemas, se mantém por um equilíbrio entre forças activadoras e inibitórias.
Maisel e colaboradores estudaram a nível do serviço de urgência 1586 doentes admitidos por dispneia(4). Cerca de 50% desses doentes foram admitidos por dispneia de causa não cardíaca. Mais importante, destes doentes, 72 tinham história de insuficiência cardíaca mas foram admitidos por dispneia doutra etiologia.
O péptido natriurético tipo B revelou-se o marcador clínico-laboratorial mais fidedigno (“odds ratio” de 29,6) na identificação de causa cardíaca como responsável pela dispneia, permitindo mesmo a separação entre patologia aguda e crónica (no subgrupo referido).
Saliento igualmente o facto de terem sido estudados diversos elementos convencionais da abordagem do doente insuficiente cardíaco, tendo sido identificado que dados de história (insuficiência cardíaca ou enfarte prévio), de observação (fervores, edema periférico) e de radiologia convencional (cardiomegália e cefalização vascular) são preditivos de dispneia de causa cardíaca.
A utilização das curvas ROC permite valorizar o teste para a prática clínica bem como definir “cutt-offs” para o mesmo. Os resultados encontrados apontam para um valor clínico similar ao PSA no cancro da próstata (91% versus 94%), teste em geral aceite como muito fidedigno. Saliento no entanto que este valor apenas foi aferido para doentes com dispneia aguda.
As normas europeias publicadas no European Heart Journal em 2001(5) consideravam já a determinação dos péptidos natriuréticos com utilidade diagnóstica. De igual forma este marcador laboratorial foi já também utilizado como guia para a terapêutica crónica da insuficiência cardíaca com considerável eficácia. Finalmente tem sido utilizado como marcador prognóstico de doença cardíaca incluindo de morte súbita.
Se se confirmar a capacidade deste marcador em determinar a gravidade e nível de compensação da insuficiência cardíaca, teremos pela primeira vez um marcador fiel e objectivo para a titulação de drogas na terapêutica da insuficiência cardíaca, até agora apenas baseada em observações empíricas.
Ainda que este marcador não venha substituir uma avaliação clínica bem feita, a determinação da concentração plasmática do péptido natriurético tipo B é um considerável avanço na criação de critérios objectivos na abordagem da insuficiência cardíaca.

1- Peeters A, Mamun AA, Willekens F, Bonneux L. A cardiovascular life history. A life course analysis of the original FraminghamHeart Study cohort. Eur Heart J 2002 23(6):458-66
2- Robert W, Schrier MD, William T Abraham, MD. Hormones and hemodynamics in heart failure. N Engl J Med 1999; 341:•577-585
3- AS Maisel and others, Rapid measurement of B-Type Natriuretic Peptide in the emergency diagnostic of heart failure. N Engl J Med, 2002; 347: 161-67
4- W. J. Remme and K. Swedberg Guidelines for the diagnosis and treatment of chronic heart failure. Task force for the diagnosis and treatment of chronic heart failure, European society of cardiology: Eur Heart J 2001 Mar;22(6):1527-1560


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