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Intervenção da Secretária de Estado Adjunta e da Saúde

SESSÃO DE ABERTURA DO
12º. CONGRESSO NACIONAL DE MEDICINA INTERNA
24 MAIO 2006

Senhoras e Senhores Congressistas

Gostaria de começar por cumprimentar todos os presentes. Congratulo-me com o facto de o 12º Congresso Nacional de Medicina Interna manter a tradição de qualidade, de diversidade e de actualidade de temáticas, o que já é uma verdadeira imagem de marca deste Congresso médico.

Verifico a partir do vosso programa que o interesse pela actualização técnica e científica da especialidade a que dedicaram a vossa carreira e a vossa vida profissional é complementado com o interesse pela evolução e modernização das organizações de saúde e, em particular, do Serviço Nacional de Saúde.

Este vosso interesse pelo todo que é o sistema de saúde, não só reflecte a filosofia da própria Medicina Interna como nos transmite um sinal de modernidade que gera confiança.

Confiança na vossa capacidade de contribuir para a melhoria contínua da prestação dos cuidados de saúde da população portuguesa.

Confiança na vossa capacidade de envolvimento na resolução dos desafios de modernização do Serviço Nacional de Saúde.

Confiança no elevado nível intelectual e humanista que caracteriza os especialistas de Medicina Interna em Portugal.
As muitas facetas do exercício da Medicina Interna são resultado do progresso científico e técnico que tem vindo a gerar interdependências, complementaridades inter-disciplinares e multiprofissionais que têm sido reforçadas a favor da prestação dos melhores cuidados de saúde ao cidadão.

De todas as facetas do exercício da MI, conforme sugere a literatura técnica internacional, os momentos de interacção com o doente assumem um papel fundamental e são um factor de distinção da vossa especialidade. Na prática, e no terreno, são os especialistas de Medicina Interna que mais promovem a troca de palavras e o contacto estabelecido na consulta ou à cabeceira da cama e que permitem entender o doente.

É esta forma de proximidade com o doente, que caracteriza a vossa actividade, que promove a boa prática da Medicina baseada na narrativa. Ou seja, a Medicina Interna promove, na sua filosofia de cuidar, o princípio de que não é possível conhecer o doente somente através da sonda do ecógrafo, da ampola de Rx ou da ocular do endoscópio.

É graças a este fundamento da actividade da Medicina Interna que a promoção da complementaridade e da actividade pluridisciplinar vêm a ser consideradas as bases doutrinárias do vosso desempenho.

A Medicina Interna é a especialidade, por excelência, das parcerias clínicas entre internistas e outros especialistas e entre médicos e outras profissões da saúde.

A Medicina Interna é a especialidade por excelência que combate o isolamento do trabalho clínico eventualmente promovido pela ‘hiper-especialização’.

Em suma, a Medicina Interna é a especialidade por excelência que promove a visão integradora da constelação de características fisiológicas e patológicas do doente e a articulação com as práticas de todas as outras especialidades. Seja em clínica de ambulatório, seja em clínica de agudos e crónicos.

A importância desta constatação é simples de entender. A prática da Medicina contemporânea, dependente das idiossincrasias institucionais, da complexidade dos fenómenos da doença e dos factores de natureza epidemiológica, não permite o estabelecimento de compartimentações rígidas do conhecimento.
Neste contexto, exige-se ao corpo de conhecimento de Medicina Interna, a construção de um edifício teórico e prático multidisciplinar que permita a resolução de problemas clínicos progressivamente mais complexos e reforce a sua posição como uma valência básica entre as básicas e que tem como função reintegrar conhecimentos dispersos pelas diferentes especialidades ou sub especialidades que dela nasceram.

A literatura técnica e científica internacional não nos deixa dúvidas. É a Medicina Interna que integra e coordena patologias, trata o doente como um todo a partir do contexto hospitalar e não abdica do princípio de planear a continuidade dos cuidados de saúde.

É para este ponto fundamental que queria pedir a vossa especial atenção.

Peço que tomem nota destes números que merecem a nossa reflexão conjunta.

Os dados de que dispomos, disponibilizados pelo IGIF e pela Direcção Geral da Saúde, indicam que temos mais de setenta e cinco mil (75.000) re-internamentos por ano. Deste total, cerca de metade são pessoas com mais de 65 anos de idade.

Outros dados de que dispomos, identificam-nos mais de duzentos e noventa mil internamentos por ano com mais de 7 dias de duração.

Mais de sessenta e três mil internamentos por ano com mais de vinte dias de duração e mais de vinte e oito mil internamentos por ano com mais de trinta dias de duração.

Mais de metade dos internamentos com mais de vinte dias de duração são de pessoas com mais de 65 anos de idade.

O aumento de internamentos com mais de sete dias de duração, de pessoas com mais de 65 anos de idade, tem vindo a crescer, desde 1995, a uma taxa anual de mais de 3%.

Os números são importantes. Mas, mais importante que os números são os seus efeitos no dia-a-dia dos serviços de saúde e dos próprios utentes do SNS.

O fenómeno dos re-internamentos é complexo. Não se explica através de um único factor. Mas, com toda a certeza que um dos factores geradores de re-internamentos desnecessários é a reduzida oferta de respostas extra-hospitalares, que permitam a continuidade de cuidados de saúde na comunidade ou no domicilio do cidadão.

De uma forma geral, as Doenças Cardiovasculares, Neoplasias, Doenças Cerebrovasculares, Doenças Neurológicas, Fracturas, HIV-SIDA, Demências, Insuficiências Respiratórias, Úlceras de Pressão, a que chamamos as patologias marcadoras dos cuidados continuados, implicam alguma perda de autonomia da pessoa.

O facto de serem prolongadas ou até permanentes e com um trajecto evolutivo tendente à intensificação dos sintomas gera situações de dependência de cuidados de saúde e apoio social aos quais urge dar respostas adequadas em função da gravidade apresentada e do contexto socio-cultural de cada cidadão.

Pois, foi precisamente a necessidade de promover a adequação dos serviços às necessidades decorrentes do aumento da incidência dos diferentes níveis de dependência que justificou a dinamização da rede cuidados continuados conforme recentemente anunciado pelo Governo.

E este é um ponto muito importante desta minha comunicação à Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Os esforços de humanização dos cuidados de saúde dependem da nossa capacidade de garantir a continuidade de cuidados de saúde. As pressões sobre as estruturas hospitalares decorrem, em larga medida, do elevado número de dias de internamento desnecessário, gerando ambientes e contextos de ruptura e dificuldade de investimento na modernização dos equipamentos e melhoria das condições de trabalho dos profissionais de saúde.

A inexistência de respostas às necessidades efectivas do cidadão com algum grau de dependência, é o diagnóstico que fizemos. O nosso plano de intervenção é a rede de cuidados continuados.

Porém, é muito importante esclarecer que o projecto dos cuidados continuados não é um fim em si mesmo, mas um meio para a promoção da continuidade de cuidados de saúde e de apoio social.

Não confundamos, portanto, os meios com os fins. A criação de uma rede para os Cuidados Continuados justifica-se pela necessidade de apoiar a implementação e a gestão do processo de inovação organizacional inerente à promoção da continuidade dos cuidados de saúde e de apoio social.

O desafio para a promoção da continuidade dos cuidados de saúde e apoio social, havendo uma lacuna do Serviço Nacional de Saúde, reside na necessidade de abrir as unidades hospitalares à comunidade.

A promoção da continuidade dos cuidados de saúde e apoio social depende da nossa capacidade de expandir a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde, alargando o seu âmbito e capacidades de articulação e parceria com os diversos agentes de apoio social da comunidade local, ainda que numa perspectiva de coordenação regional.

Senhoras e senhores Congressistas

A modernização do Serviço Nacional de Saúde depende do vosso envolvimento. O desenvolvimento equilibrado do nosso País necessita do vosso elevado capital intelectual.

Os nossos desafios são claros.

Temos que combater a tendência para que os serviços de Medicina Interna sejam depósitos de doentes crónicos e idosos que os outros serviços hospitalares recusam. Esta não é a vocação natural de um serviço central para um hospital de agudos. A Medicina Interna assume, portanto, três papéis fundamentais na modernização das respostas do hospital de agudos

Um primeiro, é o diagnóstico e tratamento de doentes do foro médico da responsabilidade de cada serviço de Medicina;

Um segundo, é a colaboração e aconselhamento no tratamento dos doentes tratados por outras especialidades médicas e cirúrgicas;

E, um terceiro papel, tão importante como os anteriores, é a participação, numa posição nuclear e integrada, na equipa de tratamento intensivo.

Ainda que a intensidade dos cuidados de saúde se verifique, principalmente, nos primeiros três dias de internamento, a permanência prolongada de doentes idosos no hospital exige uma maior dedicação de recursos e torna-os, por isso, mais vulneráveis às infecções nosocomiais do que os restantes doentes.

Por estes motivos, o projecto de promoção da continuidade dos cuidados de saúde e apoio social, tem por propósito essencial da política de saúde encontrar medidas de encurtamento da sua estadia no hospital de agudos. É assim que as alternativas preconizadas no modelo adoptado incluem as vertentes de internamento de convalescença, média e longa duração, de reabilitação e de articulação com as respostas de cuidados domiciliários de continuidade.

Para este propósito estratégico da política de saúde, é essencial ver o doente de forma integral.

O Internista, com o seu conhecimento multipatológico e integrador dos saberes médicos, tem claras vantagens e capacidade para fomentar alternativas qualitativamente mais adequadas à visão holística da pessoa.

É, por isso, que ao observar os conteúdos temáticos deste congresso fico muito optimista quanto ao progresso científico da Medicina Interna e quanto ao seu potencial para modernizar o Serviço Nacional de Saúde e ser uma peça fulcral do nosso sistema de saúde.

Votos de um Congresso em harmonia com o espírito de dedicação ao Outro que caracteriza a Medicina em Portugal.


Obrigado pela Vossa Atenção.

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