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Ex.ma Senhora Dr.ª
Carmen Pignatelli, Secretária de Estado Adjunta e da
Saúde
Ex.mo Senhor Dr. Pedro Moreira da Silva, Presidente da Direcção
da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médios,
em representação do Bastonário Dr. Pedro
Nunes
Ex.mo Senhor Dr. Alcindo Maciel Barbosa – Presidente
da Administração Regional de Saúde do
Norte
Ex.mo Senhor Professor Nuno Alçada em representação
do director da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Ex.mo Senhor Dr. Carlos Dias – Presidente do 12º
Congresso Nacional de Medicina Interna
Ex.mo Senhor Dr. João Sá – Presidente
da Direcção do Colégio de Medicina Interna
da Ordem dos Médicos
Caros Colegas e Congressistas
Bem vindos ao 12º Congresso Nacional de Medicina Interna,
Bem-vindos ao Porto que sempre nos acolhe com tanta cordialidade
É meu dever, que cumpro com particular prazer, agradecer
em nome da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, a presença
de tão ilustres convidados que nos honram da sua presença
nesta sessão inaugural.
Temos sido privilegiados nos últimos congressos com
a presença regular dos mais altos responsáveis
pela saúde do nosso país que têm vindo
junto de nós demonstrar o seu interesse pela nossa
Especialidade e saber das nossas preocupações
e inquietações, dando-nos também oportunidade
de reafirmar o nosso empenho em contribuir para uma efectiva
melhoria das condições de saúde da nossa
população.
Quero em especial assinalar a presença da Senhora Dr.ª
Carmen Pignatelli, Secretária de Estado Adjunta e da
Saúde que preside a esta sessão inaugural, no
impedimento do Sr. Ministro da Saúde, pois sabemos
da sua particular atenção à Medicina
Interna e o empenho que tem demonstrado na resolução
dos problemas que se nos colocam, como os das urgências,
do tratamento e gestão das doenças crónicas
e dos cuidados continuados, áreas com que os internistas
se confrontam diariamente. Não posso pois deixar de
aproveitar a sua presença para lhe dar conta do nosso
sentir e do nosso querer, e lhe manifestar a nossa simpatia
em a receber no nosso Congresso.
O nosso Congresso é um momento de revitalização
das nossas energias e do nosso conhecimento. Anualmente encontramo-nos
para nos actualizar cientificamente, para fazermos o balanço
das nossas actividades e para reflectir sobre o nosso futuro.
Vivemos hoje nos hospitais processos de mudança que
encaramos como uma oportunidade para a melhoria dos nossos
serviços e das condições de desempenho
da Medicina Interna.
Nos últimos anos temos reflectido muito, no seio da
nossa Sociedade, e com as Sociedades de Medicina Interna dos
países Europeus, sobre as implicações
para a Medicina Interna das novas formas de organização
e gestão dos Hospitais que se estão a implementar.
Realizamos nesse âmbito este ano duas importantes reuniões.
Uma de Directores e Chefes de Serviço de Medicina Interna
em que estiveram cerca de 80 colegas com estas funções,
outra com os internos da nossa especialidade, ambas em Tomar.
Estas reuniões ajudaram-nos a estabelecer as bases
de um plano estratégico para a nossa acção
em que ressalta a necessidade de nos darmos a conhecer fora
dos Hospitais, mostrando a importância do que fazemos,
quer a população em geral, aos media, aos lideres
de opinião e aos decisores políticos. Neste
sentido lançamos neste Congresso a Revista “Medicina
Interna Hoje” que foi concebida para divulgar a nossa
especialidade junto de não Médicos e que terá
periodicidade trimestral
Temos por outro lado a decorrer um estudo liderado pelo Prof.
Pita Barros, professor catedrático de Economia da Saúde
da Universidade Nova de Lisboa, para avaliar o custo eficácia
da Medicina Interna comparada com outras especialidades no
tratamento de patologias mais prevalentes nas nossas enfermarias.
Vamos no âmbito das actividades paralelas a este Congresso
realizar uma primeira reunião entre as Direcções
da SPMI e da Sociedade Espanhola de Medicina Interna.
São pequenos passos que damos profundamente convencidos
que compete em primeiro lugar aos internistas mostrar e demonstrar
a pertinência da existência da Medicina Interna
como especialidade autónoma.
Mas o desafio não é só nosso e não
nos importa exclusivamente.
Importa saber, em concreto, qual o papel que está
reservado ao internistas no novo modelo de Sistema de Saúde
e no Serviço Nacional de Saúde que estamos a
construir.
Importa saber se no novo modelo seremos só tolerados
ou desejados e essenciais.
Se contam connosco, e para quê, ou se só
nos estarão reservadas as tarefas que mais ninguém
quer realizar porque pouco gratificantes.
De um modo geral as declarações formais sobre
a Medicina Interna, emitidas por decisores políticos
ou com responsabilidade de gestão, são música
celestial para os nossos ouvidos, mas quando no terreno, no
nosso dia a dia, continuam a ser assumidas atitudes contraditórios,
por vezes mesmo atentatórios para a Medicina Interna.
Sabemos como a realidade é complexa e na saúde
mais do que em qualquer outra actividade humana. A Medicina
Interna precisa hoje de sinais inequívocos de apoio
e suporte, pois exerce a sua actividade em condições
árduas e com escasso reconhecimento social.
É difícil manter o ânimo dos internistas
:
- quando a Direcção Geral de Saúde elabora
planos de referenciação para as doenças
cardio-vasculares ou para as doenças reumáticas
ignorando completamente os internistas;
- quando se mantêm os internistas impossibilitados de
prescrever fármacos para a Doença de Alzheimer,
ou a esclerose múltipla, ou da doença inflamatória
do cólon ou ainda se tenta impedi-los de os prescrever
na artrite reumatóide;
- quando se discute a reorganização das urgência
e se ignoram os internistas.
A questão das urgências merece-nos
particular atenção pois a forma como for, ou
não, resolvida vai condicionar todo a evolução
do Sistema de Saúde que hoje se encontra refém
das urgências.
Os internistas desejam profundamente uma alteração
da situação e encaram positivamente a reestruturação
das urgências mas esta reestruturação
não pode estar desligada daquilo que precisa, e está
a ser feito, ao nível dos cuidados primários,
nomeadamente com a Unidade de Saúde Familiar, bem como
do que precisa de ser feito em termos de ambulatório
hospitalar.
Toda a actividade hospitalar têm estado focalizada na
urgência e na “resolução”
dos problemas da urgência e isto não acontece
por acaso. Se é verdade que existem problemas de acesso
ao Sistema e a urgência é a porta sempre aberta,
e onde têm estado sempre os internistas, e se é
verdade que temos muitos cidadãos sem Médico
de Assistente ou de Família, o que é também
verdade é que os Hospitais tem preferido aumentar as
suas urgências a investir em soluções
alternativas como consultas abertas para o tratamento das
patologias crónicas mais frequentes como a diabetes,
a insuficiência cardíaca ou as insuficiências
respiratórias. Consultas estas que iriam tirar muitos
doentes das urgência.
É preciso criar alternativas à Medicina do “toca
e foge” prevalente na urgência, em que a responsabilização
quer do médico quer do doente é mínima
porque a relação terapêutica que estabelecem
é efémera se sem compromisso.
Isto é tanto mais importante quando as doenças
crónicas constituem o grande desafio aos nossos sistemas
de saúde.
Nos últimos anos os avanços da medicina permitiram
que um elevado número de doenças rapidamente
fatais se transformassem em doenças crónicas
de longa duração com uma muito razoável
qualidade de vida. Em praticamente em todos as áreas
da Medicina desde a patologia vascular cardíaca e cerebral,
respiratória, hepática, oncológica e
infecciosa de que o SIDA é o paradigma, confrontamos
com patologias em que a esperança de vida, após
o diagnóstico, cresce todos os dia de forma exponencial,
com o inerente sobrecarga para os serviços de saúde.
Ora o pior sítio para tratar as intercorrências
ou as agudizações das doenças crónicas
são as urgências
É neste novo contexto que os serviços de saúde
tem de se reorganizar.
Tem de ser feita uma opção radical
relativamente ao nosso sistema de saúde garantido maior
acessibilidade mas retirando-a dos serviços de urgências.
Ora porque é que a situação se mantêm?
Estou convicto de que esta situação se mantêm
porque de facto os Hospitais obtêm parte significativa
do seu financiamento através do que recebem pelo atendimento
dos doentes na urgência. É uma perversão
que urge ultrapassar!
O financiamento dos Hospitais tem de ser modificado a começar
pela urgência. O actual modelo parece-nos preservo pois
estimula os Hospitais a apostar no crescimento da urgência
pois a forma de pagamento actualmente em vigor origina proventos
importantes pagos por este atendimento.
Vimos por surgir um discurso “novo” a defender
a necessidade de manterem grandes urgências a funcionar
em vez de procurarem encontram formas alternativas de receber
e tratar os doentes.
E o célebre protocolo de Manchester aliado ao sistema
Alert constituem fortes aliados para se manter tudo como está.
Não introduzem rupturas no sistema de funcionamento
dos Hospitais. Na pratica defendem os vícios antigos
com roupagem moderna. É uma forma de adaptação
à realidade não de intervenção
sobre a realidade.
É frequente ouvirmos, para justificarmos a necessidade
de mantermos Serviço de urgência hiperdimensionados,
falar na elevada percentagem de doentes amarelos que lá
se dirigem.
Pergunta-se. Não seria possível os Hospitais
organizarem-se para atenderem estes doentes doutra maneira?
Quantos desses não poderiam ter a sua situação
resolvida se tivéssemos outro tipo de organização
de consultas no hospital? Se tivéssemos consultas abertas
das 8 às 20 horas nos Hospitais para as patologias
mais prevalentes como por exemplo a insuficiência cardíaca,
a insuficiência respiratória, a diabetes onde
os doentes crónicos lá seguidos poderiam ser
observados sempre que ocorressem intercorrências, um
pouco como já acontece com os Hospitais de dia de Oncologia
ou dos doentes com SIDA.
A proposta pratica para por fim à perversão
induzida pelo financiamento das nossas urgências é
de que as categorias / as cores que o protocolo de Manchester
atribuí aos doentes nas urgências hospitalares,
passem a ser a referência para o financiamento/pagamento
das urgências Hospitais. Assim os doentes “verdes
e azuis” passariam a ser valorizados e pagos ao Hospital
como consulta de Medico de Família no Centro de Saúde,
os “amarelos” com consulta hospitalar regular,
e só “os laranjas e vermelhos” como urgências
hospitalares.
Desta maneira veríamos certamente uma alteração
muito substancial na forma como as actuais administrações
hospitalares olham para a organização estrutura
dos hospitais, procurando melhor serviços e não
contribuindo para hipertrofiar a urgência. A urgência
é uma solução de recurso não pode
ser o alicerce a partir do qual se estrutura a prestação
de cuidados de saúde.
Só resolvido este dilema importa discutir o papel do
internista na urgência, área de intervenção
donde não deve ser afastado
Apoiamos pois a concentração e a redução
das urgências como medida de racionalização
dos meios humanos e técnicos disponíveis. Estamos
certos que isso irá libertar muito tempo de trabalho
médico e reduzir as horas extraordinárias, mas
importa criar alternativas e incentivos.
Não vale apenas ignorar que para muito médicos,
nomeadamente internistas, as horas extraordinárias
realizadas na urgência, tem sido um complemento importante
da sua remuneração, mas que os desvia do essencial
da sua missão que é o tratamento dos doentes
internados ou a observação de doentes em consulta.
Deve pois ser pensado um sistema de incentivos ao desempenho
individual que valorize a consulta e a sua reorganização,
que valorize e quantifique o trabalho realizado com a assistência
aos doentes internados e não só o trabalho na
urgência.
Mas chega de urgências. Há mais Medicina Interna
para além das urgências…
A situação da Medicina Interna é hoje
muito diferente do que era há 20 anos, estamos em melhores
condições para enfrentar os desafios e as exigência
que a nossa pratica assistencial nos impõe, mas o futuro
da nossa especialidade está longe de estar assegurado.
O percurso que fizemos ao longo dos últimos anos reforça
em nós o sentimento de sermos uma especialidade essencial
ao nosso serviço nacional de saúde e de termos
sempre cumprido o nosso dever nas condições
por todos conhecidas.
O que nos motiva está muito para além da nossa
sobrevivência individual ou colectiva, como especialistas.
Os internistas da minha geração não temem
pelo seu futuro pessoal ou profissional. Como as stem cells
ou células pluripotenciais, somos flexíveis
e polivalentes e facilmente nos adaptamos a novas realidades.
Quem optou e quem opta pela Medicina Interna assumiu e assume
uma atitude de serviço e não tem ilusões
quanto a hipótese de ficar rico no desempenho da sua
missão. Mas deseja ver a sua especialidade reconhecida
e acarinhada e aspira a ter uma vida digna e com o conforto
adequado ao exercício de missão tão exigente.
Ora há que dar sinais inequívocos, nomeadamente
aos jovens médicos e aos jovens internistas do que
se pretendem da Medicina Interna tornando-a uma especialidade
mais respeitada e atractiva, compensadora do ponto de vista
profissional, social e económico.
A Medicina Interna só existe e sobrevive se for útil
e necessária à Sociedade que serve, não
por teimosia dos internistas.
Acreditamos na Medicina Interna e sabemos que compete aos
internistas defender e promover a sua especialidade, sabemos
que num mundo em mudança a Medicina Interna têm
de assumir novos papeis e novos desafios, mas sabemos que
o futuro da Medicina Interna é indissociável
do futuro do Hospital e dos modelos de organização
que vierem a ser adoptados. E neste momento tudo está
em aberto pois estão em confronto novos modelos de
organização hospitalar que relativamente ao
papel do internista vão desde a negação
da necessidade do internista a modelos que centram no internista
toda a actividade do Hospital.
Estamos convictos que as melhores soluções não
dispensam a Medicina Interna e por isso continuaremos a pugnar.
Antes de terminar uma palavra de agradecimento a todos os
que tornaram este Congresso possível e muito em especial
ao Dr. Carlos Dias e à sua Comissão Organizadora.
Obrigado pela vossa atenção
Bom Congresso
Porto, 24 de Maio de 2006
Faustino Ferreira
Presidente da SPMI
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