|
Intervenção
na Sessão de Encerramento do Presidente da SPMI
Dr. Faustino Ferreira
Excelentíssimo Senhor Ministro da Saúde
Professor Doutor António Correia de Campos
Ex.mo Senhor Governador Civil de Braga
Dr. Fernando Moniz
Sua Eminência Senhor Arcebispo Primaz de Barga
D. Jorge Urtiga
Ex.mo Senhor Presidente da ARS do Norte
Dr. Alcino Maciel Barbosa
Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Braga
Eng. Mesquita Machado
Ex.mo Senhor Presidente do 11ºCongresso Nacional de Medicina
Interna
Dr. António Rodrigues Dias
Ex.mo Senhor Presidente da Associação de Médicos
de Clínica Geral
Dr. Luís Pisco
Ex.mo Senhor Presidente da Associação de Administradores
Hospitalares
Dr. Manuel Delgado
Ex.mo Senhor Presidente da Comissão de Ética para
a Investigação Cientifica
Dr. Barros Veloso
Ilustres convidados
Caras e Caros Colegas congressistas,
A Medicina Interna e a sua Sociedade consideram um enorme
privilégio a presença de Sua Excelência
o Senhor Ministro da Saúde nesta sessão de encerramento
do nosso 11ºCongresso e encaram-na uma prova de consideração
e estímulo para os internistas.
Foi com especial agrado que soubemos do seu interesse em presidir
à Conferência que antecedeu esta sessão
e assim participar activamente no programa de trabalho do
nosso Congresso. Muito obrigado Senhor Ministro. Agradeço
a todos os convidados a vossa presença e o que ela
significa de apoio e consideração pela nossa
especialidade. Bem Hajam.
Senhor Ministro, Sabemos que conhece bem as dificuldades da
Medicina Interna, mas que simultaneamente muito espera de
nós.
Queremos afirmar-lhe que os internistas estão preparados
para os desafios que se adivinham. Por formação
somos os especialistas dos casos difíceis e complicados.
À situação complexa e difícil
que vivemos na saúde, confrontados com limitações
de meios humanos e económicos, que não se vão
resolver de um dia para o outro, e que nos impõem a
sua criteriosa utilização, iremos continuar
a dar o nosso melhor contributo para a enfrentar como sempre
temos feito. Dizemo-lo conscientes de termos sido, ao longo
dos anos, o principal suporte do SNS, impedindo a sua ruptura,
suportando frequentemente ritmos de trabalho alucinantes,
nas urgências.
Conhecemos como ninguém como está organizado
e funciona o Sistema de Saúde, os seus estrangulamentos,
e as suas potencialidades, pelo que estamos particulares bem
posicionados para contribuir para a sua necessária
reengenharia, para a integração dos cuidados
de saúde de proximidade com os hospitalares, e destes
entre si.
Se a visibilidade da Medicina Interna nunca foi tão
notória nem a sua importância tão inquestionável,
nunca os internistas temeram tanto pelo futuro da sua Especialidade.
A aposta na Medicina Interna como corpo de especialistas que
pode dar um contributo único e decisivo na reorganização
do nosso sistema de saúde é para nós
uma questão política determinante.
O reconhecimento implícito da importância da
nossa especialidade carece de actos explícitos que
a dignifiquem. A Medicina Interna não precisa de palavras
consoladoras. Precisa de gestos motivadores.
Uma situação que carece de urgente resolução
é o fim da limitação da prescrição
de Medicamentos aos internistas
Sendo nós os clínicos que melhor conhecem os
medicamentos, as suas indicações e riscos, as
suas interacções e complicações,
que mais se batem pelo seu uso racional, os que maior pratica
têm de prescrição pela denominação
comum internacional, que é o suporte à prescrição
de genéricos, os especialistas que mais colaboram com
as comissões de farmácia e de controle de infecção
por todo o país, não podemos aceitar restrições
administrativas à nossa capacidade de prescrição.
Tentativas nesse sentido têm ocorrido, como esteve para
acontecer com a prescrição das terapêuticas
biológicas para a Artrite Reumatóide, e ocorreu
mesmo recentemente com a publicação dum despacho
que restringe o uso de um medicamento, o infliximab, para
a doença de Chron, aos gastrenterologistas.
Dispomos actualmente de novos fármacos muito eficazes
mas de elevado custo o que implica a sua disponibilização
se faça sob controlo estrito e protocolado, mas a exclusão
dos internistas só pode ser prejudicial aos doentes
e ao sistema de saúde.
Batemo-nos pelo princípio que a restrição
de prescrição de terapêutica Médica,
deverá incluir sempre a Medicina Interna na lista dos
especialistas com capacidade de prescrição.
A rejeição deste princípio de clara natureza
política, pela tutela, só pode entendido por
nós como um sinal de menoridade da especialidade e
um estímulo à sua fragmentação.
A sua aceitação é para nós uma
questão crucial como forma de impedir o impulso à
criação de novas especialidades e sub-especialidades,
que visam assim tomar conta de patologias até aqui
desprezadas por falta de terapêuticas eficazes, e por
isso entregues à Medicina Interna, mas que o surgimento
de fármacos sobre essas patologias as torna apetecíveis.
Como exemplo do que afirmamos temos a criação
recente da sub-especialidade de Hepatologia pela Gastrenterologia,
quando em Portugal muito dos principais hepatologistas são
internistas, como forma de se criarem condições
para o monopólio da prescrição de determinados
fármacos.
Outro aspecto que nos afecta e para o qual vimos há
muito tempo alertando é para a falta de médicos
e nomeadamente de especialistas de Medicina Interna. É
esta falta, associada à falta de Clínicos Gerais
que torna o quotidiano dos internistas tão duro e desmotivante,
pela sobrecarga de trabalho nas urgências.
Temos uma boa notícia a registar -
131 vagas para Medicina Interna no próximo concurso
de acesso às especialidades. O maior número
de vagas desde sempre atribuído à Medicina Interna.
Pela primeira vez somos a especialidade com maior número
vagas atribuídas. Apraz-nos realçar este facto
que entendemos como uma forte aposta na Medicina Interna,
que nos anima mas aumenta as nossas responsabilidades.
Há que garantir, aos novos internos, as melhores condições
para a sua formação e motivação.
Teremos todos de trabalhar para que os novos internos não
desistam a meio e mudem de especialidade, ou sendo muitos
deles oriundos da vizinha Espanha, se vão embora no
final do internato. Teremos de criar condições
e incentivos para os fixar.
Senhor Ministro, Prezados convidados, Caros colegas
Foram apresentados na nossa Assembleia-geral, dos primeiros
resultados de estudo de opinião realizado aos internistas
portugueses nas últimas semanas, sobre a nossa especialidade
e o seu futuro no SNS. Estes resultados são muito animadores
para todos nós. Permito-me trazer aqui alguns deles.
Questionados quanto à forma como vêem a sua actividade
actual e futura, 52% dos internistas concordam com a possibilidade
de participarem em programas de hospitalização
domiciliária; 74% concordam em ter um papel relevante
nos cuidados continuados;
67% consideram como uma oportunidade a valorização
crescente do ambulatório, 56% consideram como uma oportunidade
a maior exigência actual dos doentes, e 87% a exigência
de valorização da qualidade assistencial; 94%
que a optimização da relação custo-benefício
faz parte essencial do seu desempenho profissional.
Quanto à forma como vivem o desempenho da sua missão,
73% sente-se pouco ou nada satisfeito como o seu quotidiano
profissional, 63% sente como má ou fraca a sua qualidade
de vida, 74% consideram más ou fracas as suas condições
de trabalho, bem como 70% consideram terem falta de tempo
para si e para a sua família.
Estes dados muito preliminares, carecendo de análise
qualitativa que irá ser realizada permitem-nos afirmar
que os internistas estão atentos e bem inseridos na
realidade mas também reflectem quanto são más
as suas condições de exercício profissional.
Se pedimos mais atenção para a Medicina Interna,
maior reconhecimento para o nosso esforço, que ouçam
a nossa opinião, fazemo-lo conscientes que nas condições
actuais outros incentivos são difíceis de obter,
tal constituirá um tónico para as nossas desgastadas
energias.
Torna-se contudo necessário encontrar formas alternativas
de incentivos para o trabalho dos internistas. A manutenção
do único incentivo existente – o pagamento de
horas extraordinárias na urgência – esgota
os internistas e impede a realização de trabalho
sistemático e continuado. Os internistas trabalham
no mínimo 54 horas por semana, 24 horas na urgência,
12h pelo menos em horas extraordinárias, habitualmente
mais.
Sabemos que vai ser necessário continuar nos próximos
anos com cargas horárias elevadas, mas pensamos desejável
uma mais adequada distribuição do tempo, com
menos tempo nas urgências o que permita dedicar mais
tempo à consulta, ao hospital de dia, à formação
de internos, à investigação, à
colaboração com os cuidados de proximidade indo
ao seu encontro, trabalhando com os colegas da Medicina Geral
e Familiar, participando em programa de hospitalização
domiciliária ou de cuidados continuados.
Para tal torna-se necessário que se encontrem formas
de remuneração de trabalho suplementar (para
além período de trabalho normal) fora do esquema
tradicional que só remunera trabalho extraordinário
na urgência.
Os cuidados continuados é uma área onde alguns
de nós têm experiência, tendo sido proposto
neste congresso a constituição de um Núcleo
de Estudo de Cuidados Continuados. Não pretendemos,
nem temos qualquer veleidade, de alguma forma substituir ou
concorrer com os nossos colegas de Medicina Geral e Familiar,
mas estamos convictos que uma estreita colaboração
poderá ser muito útil para os nossos doentes
comuns e para uma melhor e mais racional utilização
do SNS.
A grande questão com que se confrontam hoje os sistemas
de saúde é a organização do tratamento
e acompanhamento dos doentes com doença crónica
qualquer que ela seja oncológica, vascular cerebral,
respiratória, infecciosa ou outra. Para a sua resolução
torna-se necessário acabar com as barreiras existentes
entre cuidados primários e diferenciados, e mesmo as
que existem dentro do Hospital. A reengenharia da estrutura
de produção de cuidados de saúde deve
favorecer o continuum de prestação de cuidados.
Os internistas estão disponíveis para ajudar
a deitar abaixo este invisível mas intransponível
muro de Berlim.
A todos os congressistas mais um vez o nosso muito obrigado
pela vossa presença e empenho.
Quero deixar uma palavra de incentivo para os Organizadores
do próximo Congresso no Porto, e para o seu presidente
Dr. Carlos Dias. Sabemos que podemos confiar no vosso esforço.
A SPMI tudo fará para vos apoiar.
Os internistas têm pela frente mais um duríssimo
ano de trabalho. Saímos contudo deste congresso
mais enriquecidos e confiantes com a esperança
renovada na capacidade da Medicina Interna e dos internistas
fazer face aos desafios dum Medicina Moderna num contexto
de mudança.
Braga, 14 de Maio de 2005
|
|