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Discurso do Presidente do 10ºCongresso Nacional
Excelentíssimo Senhor Presidente da República - Dr. Jorge Sampaio
Senhor Ministro da Saúde - Dr. Luís Filipe Pereira
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Loulé – Dr. Sebastião Emídio
Senhor Presidente da Conselho Nacional Executivo da Ordem dos Médicos – Prof. Germano de Sousa
Senhor Presidente da SPMI – Prof. Doutor Fernando Santos

Excelentíssimas/os Convidadas/os,
Minhas Senhoras e Senhores
Caras e caros Colegas

Bem-vindos ao 10º Congresso Nacional de Medicina Interna

Os internistas têm hoje motivos de regozijo.
A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna nos seus 52 anos de existência tem pela primeira vez o privilégio de Sua Excelência o Senhor Presidente da Republica se ter dignado presidir à Comissão de Honra do Congresso e a esta sessão inaugural.

Senhor Presidente consideramos a sua presença aqui um incentivo fortíssimo a mantermo-nos fiéis à missão que assumimos ao escolher a Medicina Interna como especialidade de diferenciação médica – a de sermos médicos de excelência – e reafirmamos perante si o compromisso de continuarmos a trabalhar e a lutar por uma assistência médica hospitalar digna e de elevada qualidade em Portugal.

A saúde dos portugueses é um desígnio nacional a que aspiramos servir e para o qual é fundamental congregar o esforço de todos. Fez bem Senhor Presidente em manter a sua agenda e no seu alto critério ter distinguido o essencial do acessório.

Estendemos naturalmente as boas vindas a todos os que quiseram associar-se a este acto e a quem manifestamos o nosso sincero agradecimento pela presença.

A Medicina Interna vive no momento actual uma situação paradoxal. Nunca a sua visibilidade foi tão notória nem a sua importância tão inquestionável, mas também nunca os internistas temeram tanto pelo seu futuro e dos serviços onde exercem.

O Congresso anual da nossa Sociedade, cuja 10ª edição que inauguramos, é um forum de encontro e actualização dos internistas oriundos dos hospitais de todo o país. O programa científico cobre áreas vitais da saúde dos portugueses com destaque para a hipertensão, a diabetes e as dislipidémias que continuam a condicionar elevada mortalidade e morbilidade cardiovascular no país. Mas temas como a auto imunidade, as infecções, nomeadamente as hepatites virais, as doenças órfãs serão também abordados. O programa do congresso retrata bem a abrangência da especialidade, mas também a particular preocupação com as patologias que por serem de difícil abordagem e nada rentáveis despertam pouco ou nenhum entusiasmo noutros sectores médicos.

Durante o Congresso iremos abordar também assuntos como a formação pós-graduada em Medicina Interna quer dos nossos internos quer de internos doutras especialidades, a articulação com a Medicina Geral e Familiar que denominamos por Medicina de Proximidade, as competências em Medicina Interna, os Grupos de Diagnóstico Homogéneo e a imprescindível auto regulação no âmbito da nossa especialidade.

“O médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”. Citamos o Prof. Abel Salazar pois ela resume o nosso sentir quanto a ser médico. Sob o seu signo procuramos que o 10º Congresso se abrisse à sociedade civil. Pretendemos assim afirmar o nosso desejo de participar de modo activo na construção dum melhor e mais eficaz Sistema Nacional de Saúde, e em simultâneo recebermos da Sociedade o reconhecimento pelo trabalho que realizamos e o seu sentir quanto ao que pretende de nós. A presença de tão ilustres convidados é disso sinal permitindo-me destacar a Conferência do Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa irá proferir.

Os internistas portugueses têm provas dadas de empenho e trabalho. Queremos continuar a ser peças chave na orgânica do Sistema Nacional de Saúde servindo de trave mestra e de suporte à instituição hospitalar e à sua articulação com os cuidados de ambulatório e primários.
Este congresso é o espelho do nosso querer.

A Medicina Interna é especialidade da complexidade e da inovação. É a especialidade dos diagnósticos difíceis, das doenças raras, das doenças emergentes, das patologias múltiplas. Os internistas estão sempre na primeira linha em especial quando as situações se complicam. Somos a especialidade básica do Hospital. Sem internistas não há Hospital. Somos os médicos dos médicos. Assumimo-nos com naturalidade como uma elite, um corpo especial entre os médicos. Por isso pagamos um preço elevado pois somos depositários de um legado ético e científico que nos torna muito exigentes e por vezes incómodos, sendo frequentemente alvo de incompreensão quer doutros colegas, quer das administrações hospitalares!

Mas o que queremos, na prática, é deixar de ser o único e último recurso para muitos portugueses que quando doentes encontram na urgência e no internista, a única porta de acesso ao nosso sistema de saúde, para passarmos a desempenhar melhor a nossa função assistencial de diagnóstico e tratamento das patologias que requerem tratamento médico em meio hospitalar.

Em Medicina não há listas de espera, pois a porta da urgência está sempre aberta e por aí entram todos os nossos doentes!

Em Portugal os elevados níveis de pobreza, de que a baixa escolaridade é causa próxima e consequência futura, condiciona que nos hospitais, as enfermarias de Medicina continuem a albergar os desprotegidos, nomeadamente idosos, para quem tardam soluções que permitam o seu encaminhamento para instituições não hospitalares.

Esta função social de redistribuição da riqueza é realizada da pior maneira e com resultados questionáveis. Torna-se necessário encontrar soluções, nomeadamente ao nível dos chamados cuidados continuados e dos cuidados paliativos áreas onde os internistas têm uma palavra a dizer e para os quais se encontram vocacionados.

O orçamento da saúde cobre uma enorme fatia da assistência social que deveria caber ao Ministério da Solidariedade e Segurança Social.

Para além da penalização por contribuírem para a assistência social aos doentes internados nos seus serviços, os actos dos internistas são também desvalorizados quando se tem em conta as tabelas das GDH’s ou a da própria Ordem dos Médicos, que lhes atribuem valores irrisórios.

Em Medicina, ao contrário de outras áreas da actividade humana, o trabalho intelectual, o domínio do saber, a capacidade de organização do trabalho médico consubstanciado na avaliação clínica, na elaboração da “folha de obra” do planeamento do processo de diagnóstico e de tratamento – função que a Medicina Interna desempenha por excelência e com excelência – é pouco ou nada valorizado.
Em qualquer outro tipo de empresa este tipo de função é considerado determinante para a produção e por isso encorajada e bem remunerada. Nos nossos hospitais tradicionais estas funções, desempenhadas por internistas encontram-se completamente secundarizados e desvalorizados.

A gestão do hospital do futuro tem que ponderar seriamente a valorização e a quantificação do trabalho dos especialistas de Medicina Interna.

Repensar a organização e a gestão dos cuidados de saúde esquecendo o papel que os internistas nela devem desempenhar, será um terrível erro estratégico que terá como consequência o esbanjamento de meios e fundos.

Os internistas, por definição aptos, estão desejosos de participar na reorganização do sistema de saúde e a envolverem-se em modelos de gestão adequados à situação actual. Consideramos, mesmo, que somos os médicos melhor colocados para participar activamente nas transformações necessárias, pois conhecemos como ninguém as caracteristicas das nossas instituições quer em meios humanos quer das suas disponibilidades técnicas.

Somos por formação, integradores de saberes e experiências e estamos habituados a liderar equipas pois, quer na urgência, quer no internamento, temos de obter, à cabeceira do doente, o concurso de colegas de outras especialidades e doutros profissionais de saúde.

Somos os mais fiéis depositários do ideário hipocrático tendo por fio condutor da nossa acção a primazia da dignidade humana do ser em sofrimento. Tratamos homens e mulheres na sua humanidade e não corpos doentes. Garantimos a salvaguarda da ética, numa época em que outros valores ganham terreno.

A situação que se vive hoje nos hospitais portugueses e que a última edição do Expresso bem retrata na sua página central deve-nos preocupar a todos. Muitos de nós interrogam-se se aquilo a que estamos a assistir é pura e simplesmente política de terra queimada. Queremos acreditar que não, e que a destruição de tudo o que se construiu nos últimos 25 anos com o esforço e o comprometimento de muitos profissionais de saúde, não é um objectivo conscientemente assumido. Queremos acreditar que às convulsões actuais sucederá a acalmia necessária para que com serenidade possamos encontrar o equilíbrio que aproveite o que de bom se faz nos hospitais e se altere o muito que precisa ser alterado. Não deitemos fora o menino com a água do banho.

Estamos apreensivos com notícias como as relacionadas com a orientação de doentes dos concelhos do sul do distrito de Leiria cujo Hospital deixou de querer assumir o seu encargo e para os quais não há alternativa conhecida, ou quando surgem rumores de descriminação de doentes que pela sua patologia se tornam muito oneroso como os doentes oncológicos ou de portadores de imunodeficiência.
Cabe à Entidade Reguladora da Saúde a responsabilidade de solucionar estes problemas. Até agora o acesso era difícil, mas passada essa barreira, a ninguém era negado o adequado tratamento não sendo conhecidos casos de protelamento ou de negação de tratamento na área da Medicina. Estamos dispostos a tudo discutir e dar a nossa melhor colaboração, mas não contem com os internistas para diminuir ou reduzir o nível de assistencial. Racionalizar e poupar sim, negar ou retirar assistência não!

Qualquer alteração profunda da organização dos serviços de saúde necessita de ter os médicos como parceiros e os internistas são parceiros privilegiados.


A Medicina Interna como especialidade médica teve a sua origem nos finais do século XIX. É pois anterior aos vários modelos de organização e gestão hospitalares que hoje se discutem e tem razões para acreditar que o seu papel nos futuros modelos será ainda mais determinante. Veja-se o que se passa actualmente nos Estados Unidos onde, com o movimento dos “hospitalistas”, se está a redescobrir o internista dos hospitais europeus, bem como aqui bem perto na comunidade valenciana, o caso do Hospital de La Ribera, em Alzira, hospital de gestão privada em que os internistas são a peça chave na orientação de todos os doentes internados, mesmo do foro cirúrgico.

Batemo-nos por estas razões por uma Medicina Interna mais forte e actuante e pela manutenção no seu âmbito de áreas em que fomos pioneiros mas que, quando se começaram a autonomizar, com as suas naturais mais valias quiseram passar a fazê-lo de forma exclusiva.
É o caso da auto imunidade, da medicina intensiva, do tratamento da imunodeficiência adquirida, e mais recentemente da geriatria, sem esquecer a diabetes que os colegas endocrinologistas teimam a incluir na designação da sua especialidade.
O poder político não deve nem pode permitir o esvaziamento da Medicina Interna, nem que seja limitada a nossa capacidade de tratamento dos doentes. O exemplo recente da tentativa de restrição das terapêuticas biológicas para a Artrite Reumatóide defendida pelos reumatologistas é um bom exemplo disso.

Se existe especialidade criteriosa na utilização dos meios ao seu dispor e com elevado ratio de custo efectividade é a Medicina Interna.

Excelentíssimo Senhor Presidente
Excelentíssimos Senhores, Colegas

É nos momentos difíceis que é necessário afirmar a esperança.
Queremos que este congresso seja um estímulo para perseverarmos no caminho que temos vindo a percorrer e que tem conduzido a Medicina Interna a uma posição de destaque e reconhecimento.

A antecipação do êxito do congresso que fazemos é possível pois registamos o maior número de inscritos de sempre tendo atingido o objectivo que nos propusemos – 1400 inscrições, recebemos o maior número de resumos para comunicações livres e posters, bem como obtivemos o maciço apoio da indústria farmacêutica ao Congresso como nunca tinha acontecido o que nos apraz registar e agradecer, e que é um sinal claro a importância que nos é actualmente reconhecida. Certo do êxito deste Congresso quero aqui expressar o meu agradecimento pessoal a todos os que o tornaram possível à Comissão Cientifica, à Comissão Organizadora e ao Secretário-Geral do Congresso Dr. António Martins Baptista por todo o imenso trabalho realizado ao longo deste ano de preparação.

Uma palavra para o Presidente da Direcção Prof. Doutor Fernando Santos que neste Congresso cessa o seu mandato. Desde 1983 que integra ininterruptamente os órgãos sociais da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna tendo com a sua dedicação, inteligência e saber muito contribuído para o assinável êxito do percurso que percorremos até aqui e que tem hoje nesta sessão um marco notável. Bem-haja Prof. Fernando Santos. A Medicina Interna espera poder continuar a contar com o seu reconhecido empenho.

Antes de terminar quero fazer um apelo aos jovens internos e jovens especialistas. É bom verificar que mesmo com as dificuldades conhecidas continuamos a ter uma notável capacidade de recrutar para a nossa especialidade jovens de elevado potencial como agora se usa dizer. A nossa Sociedade tem feito um sério esforço de lhe proporcionar apoio à formação e esperamos vir a aumentá-lo. Mas é muito importante a vossa participação na vida da vossa Sociedade. Não fiquem à espera que os vamos buscar a casa. Participem activamente nas actividades da Sociedade, proponham iniciativas, escrevam artigos para a revista e para o nosso site, criem grupos de trabalho. Sejam criativos e pró-activos!

A Medicina Interna está de parabéns pelo dinamismo demonstrado nos últimos anos. Mas não podemos descansar sobre os êxitos obtidos. Temos árduo trabalho pela frente. A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna tem sabido granjear a consideração das suas congéneres europeias e é com muito orgulho que podemos confirmar a realização em Lisboa, em simultâneo com o 13º Congresso Nacional, do 6º Congresso Europeu de Medicina Interna em Maio de 2007.

Termino desejando a todos um Bom Congresso e uma boa estadia em Vilamoura.


Vilamoura, 26 de Maio de 2004



Nota:
Intervenção na sessão inaugural do Dr. Faustino Ferreira,

Presidente do 10º Congresso Nacional,
Presidente eleito da SPMI para o biénio 2004-6,
Director Clínico dos SAMS (Sul e ilhas),
Coordenador do Conselho Nacional para o Exercício Técnico da Medicina da Ordem dos Médicos,
Membro do Colégio de Medicina Interna da OM, e seu representante na Secção de Medicina Interna da UEMS,
Membro do Conselho Administrativo da Federação Europeia de Medicina Interna
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