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As minhas primeiras palavras vão, naturalmente, para o Senhor Presidente do Governo Regional, Dr. Alberto João Jardim. Como Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, peço-lhe que aceite a nossa gratidão pelo inestimável apoio que dá a este 9º Congresso Nacional que hoje tem início nesta cidade do Funchal, a minha cidade natal.
Para o Dr. Fernando Drumond Borges, Presidente deste evento científico, dirijo, em meu nome e também em nome da Direcção desta Sociedade, os maiores agradecimentos por se ter disponibilizado para organizar este Congresso.
Para todos os restantes elementos da Comissão Organizadora, quero deixar um amigo e grato abraço.
O trabalho foi certamente muito!
De facto, desde a elaboração do programa, convites a prelectores, selecção das comunicações livres e posters, escolhidos de um total de seis centenas, até à organização das viagens e alojamentos dos congressistas, vai um trabalho imenso.
O esforço vai contudo ser compensado!
Vai compensar e vai contribuir para consolidar o percurso que a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna iniciou há longos anos.
Para os mais jovens, atrevo-me a relembrar um pouco da nossa história.
A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna foi fundada em 1951.
Teve como primeiro Presidente, o Prof. Mário Moreira.
Seguiram-se naquele cargo, o Prof. Vaz Serra e o Prof. Cerqueira Gomes, entre outros. Tinha em 1951, CEM sócios.
Foi sobrevivendo com maior ou menor dificuldade até ao início dos anos sessenta, época a partir da qual entrou, como alguém escreveu, em lenta agonia até ao ano de 1980.
Esvaziou-se, naquela altura, com o aparecimento das subespecialidades que dela derivaram.
Houve, contudo, quem resistisse ao apelo da diáspora, mantendose fiel à especialidade-mãe.
De entre outros, permitam-me que destaque o nome do Prof. Armando Porto, aqui presente, que em 1979 escreveu e publicou um texto intitulado “ser internista”.
Este texto foi, de facto, um verdadeiro manifesto que abriu o caminho para o renascimento da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna em 1983, corolário de um movimento iniciado também pelo Prof. Armando Porto.
Assumiu a Presidência da Direcção no Triénio que naquele ano começou, o Prof. Cerqueira Magro. Seguiram-se o Prof. Armando Porto, o Dr. Barros Veloso, o Prof. Levi Guerra, o Dr. Santana Maia, o Dr. Luís Dutschman e o Dr. Soares de Sousa.
Com eles trabalharam, durante os últimos vinte anos, muitos colegas que ocuparam os restantes lugares da Direcção, da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal.
Como já vão longe os tempos de 1983, em que o nosso secretariado se resumia a dois dossiers e à informação contida na memória do Senhor Anselmo que ainda hoje e também aqui nos faz companhia!
De facto, o Senhor Anselmo tinha memória das nossas coisas e não apenas uma vaga ideia. Para ele, contemporâneo da fundação da sociedade e do seu renascimento deixo um abraço carinhoso e grato.
Hoje, posso afirmar que a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna está viva e bem de saúde, quer científica, quer financeira.
Publica com regularidade uma revista, edita periodicamente uma folha informativa, organiza anualmente um congresso nacional, tem grupos de estudo a funcionar, faz cursos temáticos para internos, atribui uma bolsa de estudo para investigação cientifica, participa activamente nos cursos da EFIM, tem sede própria com pessoal administrativo permanente, e executa anualmente um orçamento significativo, como puderam verificar no relatório e contas oportunamente enviados a todos os 1500 sócios.
Julgo, portanto, que a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna vive um bom momento.
Há, contudo, algumas ameaças no horizonte que nos devem preocupar a todos.
Sem pretender transformar esta sessão de abertura numa sessão política, não posso deixar de chamar a atenção para a formação dos futuros internos no contexto da nova lei de gestão hospitalar.
A actual Lei de Gestão, apenas aplicável no Continente, introduz um regime jurídico que, ao abrir caminho à generalização do contrato individual de trabalho, ferirá mortalmente a carreira médica hospitalar.
A contratação individual, substituirá progressivamente os concursos de provimento, permitindo que se contrate, não o mais apto, mas, sim, o mais dócil, o mais barato e, eventualmente, o mais protegido.
O contrato individual, uma vez generalizado, deixará sem sentido os lugares, os cargos e as funções de assistente, de assistente graduado e de chefe de serviço.
Desfeita esta hierarquia, acabarão as admissões por provimento e as admissões por concurso. Tudo ficará entregue ao poder discricionário dos gestores das Unidades Hospitalares.
Uma vez desmontada a carreira médica hospitalar, como passará a ser feita a formação dos internos?
Como ficam enquadrados os internatos complementares?
Como será feito o aperfeiçoamento técnico-científico?
Desconhecer a indispensabilidade da existência de uma carreira médica hospitalar consistente e prestigiada é condenar ao fracasso a tarefa de, no futuro, formar Especialistas de qualidade.
Não nos parece que os actuais Hospitais S.A., queiram utilizar parte do seu orçamento e outros recursos, em actividades não lucrativas.
Formar Especialistas e manter uma pirâmide hierárquica equilibrada não vai ser, garantidamente, uma das vocações daqueles hospitais.
São estas as dúvidas que tenho quanto ao futuro da formação dos nossos internos.
É nosso propósito, contudo, procurar obter, junto do Ministério da Saúde e da Ordem dos Médicos, os esclarecimentos que o assunto justifica, chamando a atenção para a instabilidade que se adivinha.
A falta de informação sobre o tema faz-nos temer o pior, sendo de recear que a Tutela não atribua a esta evolução que se adivinha importância de maior.
Reconstruir uma carreira médica que, apesar de imperfeita, tão bons serviços tem prestado, será tarefa para uma geração.
Esperemos que um avisado bom senso prevaleça.
Esta e outras tarefas obrigam-nos a todos.
A todos os que não puderam vir a este Congresso e a todos os que vieram e que comigo renovarão a intenção de continuarmos a prestigiar a Medicina Interna, especialidade infinita que um dia resolvemos abraçar, num misto de loucura e grandeza de coração,
UM ABRAÇO AMIGO PARA TODOS!
Realizado no Funchal, de 27 a 31 de Maio de 2003
Fernando Santos
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