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Discurso do Presidente do 6º Congresso Nacional

Não nos deixando embalar por certa euforia – para não dizer disforia – milenarista, seria estultícia não confessar algum orgulho por ver realizar-se nesta cidade do Porto o último Congresso Nacional de Medicina Interna do decantado – e desancado – século XX.

Nesta cidade e neste século XX...

Nesta cidade do Porto que, se não foi embrião de Portugal, foi, pelo menos, a matriz do seu nome.(Que os céus perdoem a quantos, mesmo só em pensamento, me acusem de bairrismo, o que não cultivo!) Nesta cidade que presenciou e patrocionou vários acontecimentos de importância para a identidade e engrandecimento da nação. Nesta cidade que conheceu os legionários de Augusto, talvez tenha visto passar o Almançor (a caminho de Compostela) e abasteceu e viu partir as primeiras caravelas; que conheceu canteiros de inspiração Cluny e Cister; que acolheu Nazoni e Gustavo Eiffel. Nesta cidade que sofreu o pânico napoleónico e viveu as lutas liberais. Nesta cidade, cujo Bispo ajudou Afonso Henriques a formar uma força de intervenção, abençoou a matriz da “ínclita geração” e levantou a voz contra a opressão...

Nesta cidade, onde viveram, estudaram, clinicaram e ensinaram, Gomes Coelho – o Júlio Diniz, o criador do João Semana, esse paradigma (nem sempre bem interpretado) de um médico de que parece se ir sentindo a falta. Onde viveram, estudaram, exerceram e ensinaram, Ricardo Jorge, paladino do conceito de saúde pública, e Plácido da Costa, Maximiano de Lemos, Abel Salazar, Corino de Andrade (felizmente ainda vivo), Aloíseo Coelho e tantos, tantos que a modéstia, a ética, a deontologia – e a distracção dos homens – furtaram aos olhos da História.

Nesta cidade e neste século...

Neste século que, apesar do ruído quase permanente dos canhões ou do átomo, assistiu a progressos científicos e técnicos autenticamente revolucionários no estudo e combate à doença.

Aquisições científicas e técnicas que, velhas de décadas, constituem ainda meios efectivos, eficazes, muitas vezes decisivos – e económicos! – na prática clínica diária, do diagnóstico à terapêutica. Muitos deles ainda hoje fundamentais, tão fundamentais que parecem banalidades.

Não querendo fatigar os nossos convidados, nem pretendendo ensinar a oração aos colegas presentes, será bom lembrar, a título de exemplo, que neste século:
se estabeleceu o diagnóstico e sistematização dos sopros e demais ruídos cardíacos; se definiram as bases do diagnóstico electrocardiográfico;
se afinou o valor semiológico do estudo do sangue periférico, do metabolismo hidro-electrolítico e dos gases do sangue;
se desenvolveu essa extraordinária e subtil tecnologia... de acordar um coração parado com uns sopapos bem aplicados, ou disciplinar uma arritmia ventricular com um choquezinho eléctrico...
se fixaram critérios clínicos de diagnóstico da generalidade das entidades patológicas, critérios essenciais, não só à clínica como à investigação.

Para não falar da guerra contra o cancro e as infecções, guerra já com notáveis batalhas vitoriosas.

Tantos progressos científicos ou técnicos deste século, para o próximo século, alguns a partir de Portugal – Plácido da Costa, Egas Moniz, Pereira Caldas, Reynaldo e Cid dos Santos, Hernâni Monteiro, Corino de Andrade e seus discípulos...

E metade dos prémios Nobel vindos para Portugal, havidos por médicos, aliás trabalhando com escassos meios e condições quase artesanais...

É claro que houve progressos tecnológicos fascinantes

– embora caros e não isentos de riscos –, como a TAC e a RMN, a moderníssima RMN, inventada há apenas um quarto de século... Um século magnífico de criação filosófica, artística e científica. E de criação de vultuosas riquezas. Um século apocalíptico, de guerras, de pestes e de fomes. Um século que fez baixar drasticamente a mortalidade infantil e se debate com o problema da droga; que viu aumentar sensivelmente a esperança de vida e está assustado com o aumento de gerontes.

Um século em que se concretizaram quase todas as ficções de Júlio Verne, Emílio Salgari e até – sabe-se lá ? – de Aldous Huxely, mas continua sem conseguir alcançar muitos dos seus objectivos humanísticos, sociais, humanitários...

De qualquer modo, um século de que se pode orgulhar a Medicina – os médicos, os enfermeiros e não só –, na medida em que contribuiram, tanto quanto lhes foi permitido, para transformar tantos progressos científicos e técnicos em benefício para o ser humano doente ou para a conservação da saúde das mulheres e dos homens e da comunidade, o mais oportunamente possível, às vezes com antecipação e até heróica temeridade.

Mas não armemos em arco. Talvez convenha ponderar o entusiasmo. Há indícios de que a eficácia diagnóstica, submetida à prova real da autópsia, terá baixado significativamente, quando comparada com a dos anos vinte. E há quem admita (é nos Estados Unidos) que “a ocorrência de resultados enganadores em alguns exames pode ter contribuido para erros de diagnóstico” * .

O que é plausível, se se pensar nas condições de trabalho e imposição quantitativa, e até certas pressões psicosociais, a que os clínicos são tantas vezes sujeitos... e no fascínio que as “tecnologias” merecem dos nossos tempos.

Talvez por isso – e porque a máquina humana teima em não ser “compatível” com outras máquinas – começa a admitir-se que, nos tempos próximos, os esforços devam orientar-se, não já para obtenção de mais e mais apetrechamento, mas, sim, para obtenção de TEMPO.

Assim pensam, pelo menos, qualificados autores de papers publicados in “Annals of Internal Medicine”, já em 2000.

Tempo. Tempo para ouvir, observar e orientar o doente.
Tempo para estudar.

E o preço corrente do tempo de um médico é, entre nós, relativamente barato.

O tempo e adequadas condições de trabalho são essenciais à natureza intelectual do trabalho médico, e ao carácter fortemente autodidáctico da formação e actualização do médico. De qualquer médico, nomeadamente – cabe-me defender a minha dama – nomeadamente do especialista em Medicina Interna.

O Internista, mais que o advogado do doente, como alguns pretendem; muito mais que um serventuário às ordens, como certos comportamentos insinuam, o Internista é o arquitecto do diagnóstico e o engenheiro da terapêutica.

Sem um ponderado trabalho de arquitectura, o engenheiro pode não acertar os cálculos, os subempreiteiros e os materiais serão mal escolhidos – toda a economia da obra estará em perigo.

Neste congresso, além de áreas científicas que houve que escolher, entre tantas que se oferecem, contempla-se a importância e actualidade do conceito de medicina interna, a formação do internista e o lugar deste nas estruturas de prestação de cuidados de saúde. É um trabalho delicado, eventualmente controverso, de continuidade...

A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna pretende

– porque sente ser seu dever e direito – aprofundar e desenvolver esse trabalho, para melhoria da qualidade, da eficácia e da dignidade da Medicina Interna; para esclarecimento das entidades tutelares, e consequente benefício do serviço a prestar a cada doente e à comunidade. Um aniversário, uma passagem de ano, a viragem de um século ou de um milénio, são momentos que cristalizamos em festa, como necessária terapêutica reconstituinte e/ou tonificante.

Mas são raros os eventos que irrompem, para prevalecer, num simples momento ou data.

Sabemos que, hoje, amanhã, como aconteceu com o artista do Vale do Côa, perante uma parede de xisto; como aconteceu com Flemming, perante aquela placa de Petri, a inteligência humana não pára.

Também sabemos que há o risco de demorarmos décadas ou séculos a perceber o alcance dos seus êxitos... Ficaremos atentos.

Porém, no dia 1 de Janeiro de 2001, a Medicina, pelos médicos, mas não só, continuará – tem que continuar – a dar o seu indispensável contributo para traduzir progressos científicos e potencialidades técnicas em benefício dos doentes e da comunidade.

Mas, para tal, precisamos de contar com que esse outro tipo especial de “médicos” – os políticos – oiçam, vejam, meditem, decidam e vigiem para que as condições morais, sociais, institucionais e estruturais, sejam propícias à nossa boa actividade profissional – actividade que, aliás, se deseja não meramente profissional.

Pena é que os muitos afazeres de V. Excias não lhes permitam que fiquem mais tempo connosco. É pena que alguns dos convidados não tenham comparecido. Temos a certeza de que gostariam de verificar como, além da substância do que está expresso no programa, cuja qualidade temos garantida pela categoria dos intervenientes, haverá 374 comunicações livres e posters.

Transportam um manancial da experiência que vai ser discutida e partilhada.

Representam, essas comunicações, um generoso contributo de mais de 1000 médicos internistas ou candidatos a internista, jovens em grande parte, que nisso envolveram enorme esforço e tempo tirado às suas horas de descanso ou recreio.

Além da sua qualidade intrínseca, que foi verificada, essas comunicações traduzem estudo e serviço prestado e denunciam um entusiasmo que permite pensar que temos gente para amanhã.

Há que acalentar esse entusiasmo.

Antes de terminar, quero agradecer à Direcção da S.P.M.I., na pessoa do seu presidente, Dr. Luís Dutschmann, o terme confiado a presidência deste Congresso, e aos internistas que aceitaram meter ombros à sua organização, o que fizeram com uma alegria, dedicação, maturidade e espírito de serviço que não só corresponderam ao que eu esperava deles, mas ainda ultrapassaram o que a minha experiência (aliás, bastante positiva) de trinta e tal anos de vida hospitalar me permitiria esperar, se tivesse tido a ingenuidade de confiar nela genericamente...

Parafraseando António Vieira, peço desculpa a V. Excias por ter falado tanto, mas não tive tempo para escrever menos...

Muito obrigado pela V. presença e pela V. atenção.
Bemvindos ao 6º Congresso Nacional de Medicina Interna.


Porto, Maio de 2000


Carlos Soares de Sousa
Presidente do 6º Congresso Nacional de Medicina Interna



*Burton, E. C., A autópsia está moribunda. Chegou a altura de a reanimar! – Hospital Practice (Edição Portuguesa), 3 (8) : 6, 1999

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